Monday, December 27, 2004

Boletim Prometheus – 20/12/ 2004

Boletim Prometheus – Nova Fase - 20 de dezembro de 2004

Prometheus conta com a parceria da Fundação Ford e o apoio da Associação Mundial de Rádios Comunitárias (AMARC), da Rede de Informações para o Terceiro Setor (RITS) e da Editora Glasberg ACR S.A.

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1 – Apesar da proibição legal, Globo vende NET para mexicanos
2 – Anatel paga Polícia Federal para fechar rádios comunitárias
3 – Acordo no Congresso derruba projeto que criava CFJ
4 – CCS aprova recomendação contrária à fusão da Sky e DirecTV
5 – FAC reúne empregados da Globo para criticar Ancinav
6 – Depois de batalha jurídica, Vicom vence leilão do Gesac
7 – Arquivos da ditadura reacendem debate sobre acesso a informações públicas
8 – Padre que preside Ancarc pede mais repressão às rádios comunitárias
9 – O ano de 2004 para o cinema nacional
10 – Entenda o que está em jogo no conceito de “governança da Internet”
11 – Notas
12 – Expediente
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1 – Apesar da proibição legal, Globo vende NET para mexicanos
Enquanto faz campanha pública contra o capital estrangeiro na mídia, as Organizações Globo seguem vendendo seus bens para empresas estrangeiras, a fim de pagar sua enorme dívida. Apenas no segundo semestre de 2004 foram três vendas. Primeiro, a Vicom foi alienada para a norte-americana Comsat. Depois, foi a vez da nova Sky (DirecTV + Sky), que terá 22% do capital nas mãos da Globo e 78% com o neo-conservador Rupert Murdoch.

Agora, é a NET Serviços (26 operações de TV a cabo e três de TV por micro-ondas), vendida para o grupo mexicano Telmex (que, no Brasil, já é dono da Embratel, da AT&T Latin America, da Vésper e da Claro). Vendida apesar da proibição da Lei da TV a Cabo (8977/95) que determina que operadoras de TV a cabo deverão ter maioria de capital nacional.

Para superar os limites da legislação, foram contratados os mesmos advogados (Barbosa Müssnich e Sérgio Bermudes) que assessoraram o Banco Opportunity na compra da Brasil Telecom, que terminou alijando da direção da empresa os sócios Itália Telecom e fundos de pensão das estatais. O processo se transformou na maior batalha jurídica dos últimos anos.

Mas, vejamos:

A empresa GB Empreendimentos e Participações (CNPJ 04.527.900/0001-42) terá 51% das ações ordinárias (com direito a voto) da NET.

A Telmex terá 37,5% das ações ordinárias da NET.

Os restantes 11,5% estarão pulverizados no mercado acionário. Pelo menos por enquanto.

Portanto, a GB será a nova sócia majoritária da NET. Mas, quem é a GB?

Dos 51% das ações da GB na NET, 51% estarão com a Globo e 49% com a Telmex. O que corresponde, no capital total da NET, a 26,01% das ações ordinárias com a Globo e 24,99% com a Telmex.

Como a GB é a sócia majoritária da NET e os 26,01% da Globo na NET correspondem a 51% da GB, em tese a Globo cumpre o disposto na Lei da TV a cabo porque mantém consigo o controle da NET, através do controle da GB.

Mas, a Telmex passa a controlar diretamente 37,5% das ações da NET e indiretamente, através da GB, mais 24,99%. Ou seja, ainda que não tenha formalmente o controle da NET, a Telmex fica com 62,49% das ações ordinárias da NET. E a Globo apenas com 24,99%.

Na prática, a NET passa a ser mexicana, sem precisar alterar a lei 8977. Basta, para isso, acrescentar um contrato particular entre Globo e Telmex que garanta a gestão mexicana do cotidiano da empresa. Quando a proibição de controle estrangeiro no cabo for suprimida (projeto do senador Ney Suassuna permite até 100% de capital estrangeiro), basta a Globo vender 2% do capital da GB para a Telmex e o controle de fato vira de direito.

Em tempo, 100% das ações preferenciais (sem direito a voto) da GB também pertencerão à Telmex.

Como este processo de reestruturação da NET é legal, ainda que questionável, a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) acabou aprovando-o através do Ato 48245, de 6 de dezembro de 2004.

ABERT

O consultor jurídico da Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert), Alexandre Jobim, declarou que a entidade apóia a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 55/2004, do senador Maguito Vilela (PMDB-GO), que estabelece limite de 30% de capital estrangeiro para empresa que “explore a produção, programação ou o provimento de conteúdo de comunicação social eletrônica dirigida ao público brasileiro, por qualquer meio e independentemente dos serviços de telecomunicações de que façam uso”. Com o desenvolvimento das novas tecnologias de transmissão de vídeo e áudio, esta proposta significa, na prática, impor limite ao capital estrangeiro nas empresas de telecomunicações (fixas e celulares).

Com a saída de Bandeirantes, SBT, Record e RedeTV de seu quadro de associados, a Abert passou a ser, praticamente, porta-voz das Organizações Globo. Portanto, não deixa de ser curioso ver a Globo vendendo a NET Serviços para o grupo mexicano Telmex no mesmo momento em que pede limite ao capital estrangeiro nas “teles”, inclusive a Embratel e a Claro (de propriedade de seus novos sócios mexicanos). Qual a estratégia de longo prazo da família Marinho?

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2 – Anatel paga Polícia Federal para fechar rádios comunitárias
A Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) tem reiteradamente dito que não tem interesse em fechar as rádios comunitárias, mas que apenas cumpre a lei. Ou seja, quando uma rádio funciona sem outorga e existe denúncia de interferência, a agência noticia a emissora para que cesse a transmissão. Caso a emissora persista no ar, a Anatel comunica a Polícia Federal (PF) para que seja lacrado o transmissor. Segundo essa versão, a Anatel acompanha a PF apenas para prestar assessoria técnica no lacre.

Mas, documento obtido pelo Boletim Prometheus junto ao gabinete do deputado federal Edson Duarte (PV-BA) demonstra que a ação da Anatel pode ir além do que ela diz.

O memorando n° 110/04-DRE/SR/DPF/MG do delegado de Polícia Federal Rodrigo G. A. de Avelar endereçado ao corregedor em exercício da Secretaria Regional do Departamento de Polícia Federal de Minas Gerais, Carlos Marcelo da Silva Rodrigues, informa que “dada as dificuldades de recursos financeiros e até humanos porque ora vem passando a Polícia Federal, é comum nas operações policiais que despesas de diárias, ou até mesmo combustível e viaturas, sejam custeadas pela Anatel”. O memorando tem o título “Informação sobre emissoras clandestinas”.

Segundo a assessoria do deputado Edson Duarte, este seria apenas um de diversos outros documentos que comprovam que a Anatel está financiando a ação da Polícia Federal no fechamento de rádios comunitárias.

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3 - Acordo no Congresso derruba projeto que criava CFJ
O presidente da Câmara dos Deputados e os líderes da oposição patrocinaram um acordo que resultou na rejeição do projeto que previa a criação do CFJ. A derrubada do projeto era considerada pelos partidos de oposição como condição para destrancar a pauta do Congresso.

Desde que foi apresentada a idéia do Conselho, as grandes empresas de mídia criaram polêmica, alegando que o projeto queria submeter o jornalismo ao controle estatal. A proposta foi apresentada pela Fenaj (Federação Nacional de Jornalistas) como tentativa de regular a certificação e a ética profissional. Ela foi encaminhada pelo Governo Federal por implicar na criação de uma autarquia, o que só pode ocorrer se partindo de um projeto de executivo.

Com a polêmica, a Fenaj tentou salvar o Conselho apresentando uma nova versão do projeto de lei, em que modificava alguns artigos, como resultado da pressão das grandes empresas. A mudança do foco do projeto – regulamentar o jornalismo para regulamentar os jornalistas – acabava retirando a responsabilidade das empresas e priorizando a fiscalização do profissional. Ao contrário de seus congêneres (medicina, economia, administração, engenharia, por exemplo), o novo conselho proposto pela Fenaj seria de “jornalistas” e não de “jornalismo”. Na nova proposta, o Conselho também deixava de ser uma autarquia, e passava a um “serviço público não-governamental”.

O Congresso, no entanto, recusou-se a debater a nova versão. O relator era o deputado Nelson Proença (PPS-RS), proprietário de uma rádio, que em seu relatório dizia "a ética do jornalista vai na contramão da ética de outras profissões”, e sugeria a rejeição do projeto. Já o líder do PFL, José Carlos Aleluia, não aceitou qualquer apelo pelo debate e declarou à Folha de S. Paulo: "não vou examinar proposta nenhuma, o acordo é para rejeitar. O projeto veio com espírito de Revolução Cultural, de tutela e censura das empresas jornalísticas".

Em nota oficial, a Fenaj declarou que “a esperança de milhares de jornalistas e a expectativa de segmentos sociais importantes foram enterradas pelos coveiros tradicionais da democracia e da organização da sociedade, aliados a inusitados novos cúmplices”.

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4 - CCS aprova recomendação contrária à fusão da Sky e DirecTV
O Conselho de Comunicação Social (CCS) aprovou pela primeira vez neste início de dezembro uma recomendação oficial em que trata da fusão da Sky com a DirecTv para operações no Brasil. As duas empresas anunciaram publicamente a proposta da fusão e apresentaram à Anatel autorização prévia para a operação. A recomendação do CCS é dirigida ao Congresso Nacional, à Anatel, ao CADE (Conselho Administrativo de Defesa Econômica), ao Ministério das Comunicações, ao Poder Judiciário e ao Ministério Público.

O texto, preparado pelos conselheiros Antonio Telles e Daniel Herz, foi aprovado por seis a votos a um, com duas abstenções. A partir de um relatório sobre a operação das duas empresas, a natureza do serviço e o mercado de TV por assinatura no Brasil, a recomendação destaca o poder político e cultural que seria atingido pelas emissoras no caso da fusão, que deixaria 95% do mercado de TVs por assinatura via satélite nas mãos de um mesmo grupo. Mais do que a concentração, significaria a concentração nas mãos de um grupo estrangeiro.

O quadro da TV por assinatura no país é hoje composto pela TV a cabo, regulada por lei ordinária, o MMDS, regulado por decreto e o DTH, regulado por portaria. A primeira recomendação é justamente ao Congresso Nacional, para que regulamente o serviço por meio de lei, tomando como referência a Lei da TV a Cabo (8977/95). Ao Ministério das Comunicações a recomendação é para atuar “vigorosamente para corrigir as distorções na atual regulamentação do DTH”.

À Anatel e ao Cade, o CCS recomenda que “façam cessar, de uma vez por todas, a prática da exclusividade na oferta de programação no segmento de TV por assinatura”. O alvo principal é a GloboSat, que só vende sua programação (por exemplo, o campeonato brasileiro de futebol) para NET e Sky.

Além disso, o CCS aponta a necessidade de “medidas adequadas para impedir a concentração de mercado que os grupos News Corp. e DirecTV Group, após terem submetido à Globo, querem impor ao Brasil”. Por fim, o CCS atenta para o papel do Poder Judiciário e do Ministério Público no acompanhamento da regulamentação do serviço DTH.

Na análise feita pelo CCS há interesses diversos envolvidos. Antonio Telles, por exemplo, um dos pareceristas, consta como representante da sociedade civil no CCS, mas acaba traduzindo os interesses da Rede Bandeirantes, de onde é vice-presidente. A emissora poderá ser prejudicada com a fusão, especialmente seus canais Band News e Band Sports, que atualmente são disponibilizados na DirecTV e que podem simplesmente ser vetados pela Globo na nova empresa (mesmo com apenas 22% do capital da nova empresa, a Globo tem poder de veto na programação).

Do outro lado, o único voto contrário foi do conselheiro Fernando Bittencourt, que está no Conselho como “engenheiro com notório conhecimento na área de comunicação social”, mas que sempre foi ligado à Rede Globo. Bittencourt apresentou declaração afirmando que a fusão entre Sky e DirecTV não ameaça a livre concorrência. A argumentação dele é de que o mercado relevante para a análise é o de TV por assinatura como um todo e não apenas o de DTH (ainda que milhares de municípios no Brasil não tenham outro tipo de TV por assinatura a não ser o satélite). Ele também afirma que a fusão não ameaçaria o interesse nacional, por significar a liberação da Globo para se focar na produção de conteúdo.

O relatório apresentado vai ser um bom teste para avaliar o alcance que podem ter as deliberações do CCS. Definido na Constituição Federal como um órgão auxiliar do Congresso Nacional, o Conselho não tem poder de decisão e sua atuação se restringe a emitir pareceres. Essa é a primeira recomendação expedida.

Reformulação do CCS

Curiosamente, na semana anterior, a Comissão de Educação do Senado havia aprovado as novas regras para o funcionamento do Conselho de Comunicação Social. A preocupação do senador Osmar Dias (PDT-PR), autor da proposta, é em relação à “intempestividade” do Conselho, por um lado, ou à “impossibilidade de manifestação em relação a questões relevantes em discussão no parlamento”, de outro lado.

Segundo o projeto, as comissões do Senado só podem solicitar pareceres e manifestações sobre matérias em tramitação se forem as responsáveis "pelo exame de mérito, ou pela mesa se o mérito da matéria não houver sido apreciado em caráter terminativo na comissão". As solicitações de estudos e pareceres podem versar sobre os seguintes temas: I – liberdade de manifestação do pensamento, da criação, da expressão e da informação; II – propaganda bebidas alcoólicas, agrotóxicos, medicamentos e terapias nos meios de comunicação social; III – diversões e espetáculos públicos; IV – produção e programação das emissoras de rádio e televisão; V – monopólio ou oligopólio dos meios de comunicação social; VI – finalidades educativas, artísticas, culturais e informativas da programação das emissoras de rádio e televisão; VII – promoção da cultura nacional e regional, e estímulo à produção independente e à regionalização da produção cultural, artística e jornalística; VIII – complementariedade dos sistemas privado, público e estatal de radiodifusão; IX – defesa da pessoa e da família de programas ou programações de rádio e televisão que contrariem o disposto na Constituição Federal; X – propriedade de empresa jornalística e de radiodifusão sonora e de sons e imagens; XI – outorga e renovação de concessão, permissão e autorização de serviços de radiodifusão sonora e de sons e imagens; e XII – legislação complementar quanto aos dispositivos constitucionais que se referem à comunicação social.

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5 – FAC reúne empregados da Globo para criticar Ancinav
O recém-criado Fórum do Audiovisual e do Cinema (FAC) realizou, no dia 15 de dezembro, seu I Ciclo de Debates, com o tema da liberdade de expressão. Todos os palestrantes criticaram a proposta do governo de criar a Agência Nacional do Cinema e do Audiovisual (Ancinav). Não havia representantes do governo no evento, nem do Congresso Brasileiro de Cinema (CBC), articulação que reúne mais de 50 entidades do cinema brasileiro. Na oportunidade, o ex-cineasta Arnaldo Jabor chegou a comparar a Ancinav a um tumor.

Mas, mais importante do que a realização do debate foi a cobertura que a mídia, em especial as Organizações Globo, deu ao evento. O jornal O Globo do dia seguinte publicou reportagem de meia página no seu principal caderno. Nela foram colhidas opiniões contrárias à criação da Ancinav de nove empregados da Globo (Roberto Farias, Arnaldo Jabor, Cristiane Torloni, Benedito Rui Barbosa, Silvio de Abreu, Toni Ramos, Nicete Bruno, Cláudio Manoel e Milton Gonçalves).

Segundo matéria de Patrícia Villalba, publicada no jornal O Estado de São Paulo, no dia 17 de dezembro, o porta-voz do FAC, Roberto Farias, teria dito que “a expectativa - com intensa pressão - é a de que Lula nem mande o projeto à votação. Se insistir, vai ser guerra voto a voto, parlamentar por parlamentar”. Na lista de discussão CinemaBrasil, Farias negou que tenha dito a frase acima.

Adiamento

O governo parece ter sentido a pressão pelo esvaziamento da Ancinav. Segundo o Ministério da Cultura, a Casa Civil solicitou adiamento da reunião do pleno do Conselho Superior de Cinema (CSC) que aprovaria a proposta de criação da Ancinav a ser encaminhada ao Congresso Nacional. A nova data não foi informada.

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6 - Depois de batalha jurídica, Vicom vence leilão do GESAC
O Governo Federal conseguiu realizar, na manhã da sexta-feira, 17 de dezembro, a nova licitação do Gesac (Governo Eletrônico - Serviço de Atendimento ao Cidadão). A empresa vencedora, a Vicom (da norte-americana Comsat), terá a tarefa de instalar mais 1.200 pontos de conexão e manter os 3.200 já instalados. O leilão deveria ter ocorrido no dia 14, mas fora suspenso por conta de liminar conseguida pela empresa Gilat, atual detentora do contrato.

O Gesac é um programa do Governo Federal que prevê a instalação de pontos de acesso à Internet em espaços públicos de todo o país, como escolas, hospitais, bibliotecas etc. O novo contrato prevê não apenas a transmissão de dados em banda larga, mas uma plataforma capaz de prover áudio, vídeo e até telefonia via IP. Além disso, estão previstas metas de qualidade que, se não cumpridas, implicarão no desconto do pagamento realizado à empresa licitada.

Essa nova licitação aconteceu porque o contrato com a Gilat foi questionado pela Controladoria Geral da União. A partir da recomendação, o ministro Eunício de Oliveira determinou que o contrato deveria ser anulado até o dia 31 de dezembro e nova licitação realizada. O orçamento previsto para os 4,4 mil pontos do Gesac durante 30 meses era de R$ 114 milhões. No entanto, o preço mínimo alcançado no leilão foi de R$ 899 por ponto/por mês, o que significa um gasto 13% maior do que o previsto.

A Gilat havia conseguido liminar suspendendo o leilão do dia 14, em virtude dele exigir a aplicação da tecnologia DVB-RCS (da “família” do padrão europeu de TV digital, DVB), ainda não certificada mundialmente. A alegação formal foi a impossibilidade de licitação por pregão no caso desse tipo de serviço. Antes disso, o Ministério havia negado três pedidos de impugnação e seis de adiamento do pregão. A liminar foi derrubada pelo governo no dia 15 e o leilão aconteceu dois dias depois.

Com a estréia da nova fase do Gesac e os comentários sobre uma possível crítica do Ministério das Comunicações ao serviço, ficam cada vez mais difíceis as chances de criação do Serviço de Comunicação Digital (SCD), proposto pela gestão do ex-ministro Miro Teixeira em parceria com a direção da Anatel. O SCD seria usado para promover a inclusão digital, mas foi alvo de muitas críticas (conforme demonstramos em número especial do Prometheus).

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7 - Arquivos da ditadura reacendem debate sobre acesso a informações públicas
A polêmica sobre a abertura dos arquivos da ditadura reacendeu a discussão sobre o acesso a informações públicas no Brasil. No final de novembro, o Governo Federal lançou o Portal da Transparência, em que publiciza os resultados consolidados da verba destinada a estados e municípios. Na mesma semana, 18 entidades da sociedade civil promoveram o lançamento oficial do Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas.

Entre as entidades que compõem o Fórum estão a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), a Associação Brasileira de Organizações Não-Governamentais (Abong), a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), o Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc), a Transparência Brasil e a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). Na declaração publicada, elas apontam algumas ações necessárias para democratizar o acesso às informações, como “uma lei que garanta e facilite o acesso do público no Brasil a documentos públicos produzidos pelos Três Poderes da República, bem como aos documentos de governos estaduais e municipais”.

O Portal da Transparência (www.portaltransparencia.gov.br), iniciativa da Controladoria-Geral da União, é uma página web com informações sobre a aplicação dos recursos federais. Nessa primeira fase, entraram os dados relativos aos repasses para os estados e municípios. Na segunda etapa, prevista para março de 2005, entrarão também as informações relativas aos gastos diretos do Governo Federal. Em junho, a terceira etapa trará os dados sobre os créditos cedidos pelos bancos oficiais.

O ministro do Controle e da Transparência, Waldir Pires, diz que o Portal possibilita a qualquer cidadão ou organização da sociedade civil a prática do controle social. Para José Antonio Moroni, do Inesc, a iniciativa é importante, mas não anula a necessidade da população ter acesso aos dados primários. “A informação tem que ser bruta. Não cabe ao Governo fazer a interpretação sobre os seus próprios gastos”, diz ele. “Nosso medo é haver maquiamento das informações. A ausência da série histórica, por exemplo, dificulta qualquer análise interpretativa”. Moroni defende o acesso público ao SIAFI e ao SIGPLAN, os sistemas que mostram detalhadamente a execução física e financeira do Governo Federal. Atualmente só gestores públicos têm acesso a esses sistemas.

A manutenção de documentos públicos em arquivos secretos também foi questionada pelo Fórum. O ex-presidente da OAB, Reginaldo de Castro, sugeriu que seja protocolada uma Ação Direta de Inconstitucionalidade questionando o decreto presidencial 4.553, de 2002, que possibilita que alguns documentos públicos sejam mantidos eternamente em sigilo. Moroni, que também é diretor de relações institucionais da ABONG, diz que as resistências à abertura das informações de arquivo são fruto da maneira como foi feita a transição para o período democrático no Brasil. “Uma abertura lenta e gradual traz o não-conflito, a não-verdade”, aponta. “Uma hora nós temos que encarar isso de frente”. Moroni destaca, contudo, alguns sinais positivos na direção da abertura, como a decisão da comissão interministerial de recolher todos os documentos guardados para um único espaço civil, o Arquivo Nacional.

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8 – Padre que preside Ancarc pede mais repressão às rádios comunitárias
O Padre José Donizetti Maciel, presidente da Associação Nacional Católica de Rádios Comunitárias (Ancarc), em mensagem enviada a rádios católicas, reconhece desmandos da Anatel e apatia do governo federal na expedição de outorgas para o funcionamento de rádios comunitárias. Mas, mesmo assim, afirma que “estamos pleiteando que todas as rádios sem autorização sejam imediatamente lacradas”.

A repressão atual parece não ser suficiente para Donizetti. Segundo reportagem de Juliana Andrade, para a Agência Brasil, foram fechadas 4412 emissoras em 2003, contra 3200 em 2002. Um acréscimo de cerca de 37%.

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9 – O ano de 2004 para o cinema nacional
O ano de 2004 não foi tão positivo para o cinema brasileiro quanto 2003.

Segundo o site Filme B (www.filmeb.com.br), os filmes brasileiros deverão vender cerca de 16 milhões de ingressos, uma queda de quase 25% em relação a 2003, mesmo com o aumento de 9% na venda geral de ingressos.

Mas, o pior mesmo é a concentração de público. Os dez filmes brasileiros mais vistos venderam quase 15,2 milhões de ingressos, ou mais de 95% do que foi arrecadado pelo cinema nacional (que lançou aproximadamente 45 filmes em 2004). Destes, sete levam a assinatura Globo Filmes (num total de aproximadamente 11,5 milhões de ingressos ou quase 72% dos tickets vendidos para filmes brasileiros). Mesmo as outras três películas classificadas entre as dez mais assistidas possuem personagens com forte relação com as Organizações Globo: Padre Marcelo Rossi, Pelé e Maurício de Souza.

Tanto o Filme B quanto a exibidora Severiano Ribeiro (maior rede nacional de cinemas) trabalha com nova queda para 2005, com o cinema brasileiro vendendo cerca de 13 milhões de ingressos.

Exibição

O Brasil possui somente 1920 salas de exibição e mais de 90% de seus municípios não têm cinemas. Por isso, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), ainda na gestão de Carlos Lessa, abriu linha de financiamento inédita para os cinemas brasileiros: a participação do banco nos empréstimos saltou de 50% para 90% do custo da obra de engenharia; o prazo para início das quitações subiu de seis para 12 meses; o volume mínimo do empréstimo baixou de R$ 10 milhões para R$ 1 milhão; e, pela primeira vez, o BNDES concederá empréstimo para o financiamento de produtos importados.

O problema é que, mesmo sendo um avanço, a iniciativa não ajuda na criação de pequenos e micro cinemas, fundamentais para a interiorização e a desconcentração das salas de exibição. Atualmente, com as tecnologias digitais, é possível montar a estrutura de projeção por cerca de US$ 35 mil. Mas, estes potenciais exibidores não teriam como captar o mínimo de US$ 1 milhão exigido pelo BNDES.

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10 – Entenda o que está em jogo no conceito de “governança da Internet”


A figura acima representa um projeto aprovado pelo Conselho Consultivo do Sistema de Servidores-Raiz (RSSAC, na sigla em inglês) da Corporação Internet para Atribuição de Nomes e Números (em inglês, Icann), apresentado no encontro da Icann na cidade de Yokohama, Japão, em julho de 2000 e obtido no website da Icann sobre o “sumário público dos relatórios fornecidos sob o acordo cooperativo de pesquisa e desenvolvimento entre a Icann e o Departamento de Comércio dos Estados Unidos”, de 14 de março de 2003 (http://www.icann.org/general/crada-report-summary-14mar03.htm).

Entre as atribuições do projeto estava a implementação de um servidor-raiz mestre (não-público) para a distribuição dos arquivos da zona-raiz a todos os outros 13 servidores-raiz. Este servidor “não-público” ficaria sobre controle direto da Icann, que, por sua vez, responde diretamente ao governo norte-americano.

Os servidores-raiz gerenciam a base de dados de todos os top-level domain (TLDs), que são divididos em “genéricos” (.com, .org, etc.) e “códigos de países (.br, .pt, .de, etc.). É esta base de dados que nos permite encontrar um endereço na Internet.

O que o desenho acima sugere é que todos os servidores-raiz da Internet têm a sua base de dados atualizada por um único servidor-raiz (não-público) sobre controle indireto do governo dos Estados Unidos.

Este é um dos temas que será discutido na segunda parte da Cúpula Mundial sobre a Sociedade da Informação (CMSI), a ser realizada na cidade de Tunis, em novembro de 2005.

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11 - Notas
Ø O consultor jurídico da Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert), Alexandre Jobim, é filho de Nelson Jobim, presidente do Supremo Tribunal Federal (STF). Alexandre é casado com Candice Galvão, filha do ministro Ilmar Galvão, vice-presidente do STF.

Ø Segundo os números do Projeto Inter-meios, os investimentos publicitários somaram R$ 9,5 bilhões entre janeiro e setembro. Isso significa um crescimento de 25,5% em relação ao mesmo período no ano de 2003. Todos os meios tiveram crescimento, especialmente TV por assinatura (66,7%) e internet (46,2%), embora o investimento de TV por assinatura represente apenas 2,2% do total. No quesito comparativo, a TV aberta leva larga vantagem, representando 61% dos investimentos.

Ø A campanha Quem Financia a Baixaria é contra a Cidadania, da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados, motivou o Ministério Público Federal a criar uma força-tarefa para fiscalizar a programação da TV. Seis procuradores acompanharão os dez programas que lideram o ranking da baixaria feito pela campanha. Entre os programas estão o Cidade Alerta e o Pânico na TV. O objetivo, além do acompanhamento, é poder oferecer um conjunto de princípios que nortearão a ação do MPF na observação da programação.

Ø A prefeitura de Belo Horizonte pretende reunir diversas atuais secretarias em uma única “secretaria de políticas sociais”. Com a medida, será extinta a secretária de cultura da cidade.

Ø Ministério da Cultura e o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) assinaram um Acordo de Cooperação Técnica para que sejam produzidas pesquisas sobre o setor cultural brasileiro. No primeiro momento, o IBGE trabalhará para consolidar os dados culturais já existentes em outras pesquisas como a Pesquisa Nacional por Amostragem Domiciliar (Pnad) e a Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF).

Ø Na recém-realizada 25° Jornada Nacional de Cineclubes, que reuniu cerca de 100 cineclubes na cidade de São Paulo, foi recriado, depois de 15 anos de inatividade, o Conselho Nacional de Cineclubes (CNC), entidade que congrega experiências de exibição cinematográfica sem fins lucrativos e com gestão democrática. O presidente é Antonio Claudino de Jesus(claudinodejesus@yahoo.com.br), do Cineclube Cine-ambiental de Vitória (ES).

12 - Expediente
“Quanta verdade um homem é capaz de suportar?” (Nietzsche)

Envie críticas, sugestões e comentários – Tel.: 55-21-2247-9219 – E-mail: indecs@indecs.org.br

Se não desejar mais receber este boletim, basta nos comunicar.

Boletim Prometheus é uma publicação semanal do Instituto de Estudos e Projetos em Comunicação e Cultura (INDECS).

Prometheus acredita que o conhecimento deve ser livre e, portanto, opera a partir do princípio do “copyleft”. Se desejar usar as informações deste boletim, basta citar a fonte. E bom uso!

Editor-responsável: jornalista Gustavo Gindre (gindre@indecs.org.br) - DRT 99279/92



Saturday, December 18, 2004

Nelson Hoineff - OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA

"Há algo de errado com a TV brasileira"

Nelson Hoineff - OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA

As cinco maiores audiências do SBT, a segunda maior rede de televisão
do país - que tem Silvio Santos, Gugu Liberato, Hebe Camargo e Ratinho
-, pertencem a filmes estrangeiros. Para constatar isso, basta ver a
lista dos programas mais vistos entre 5 e 11 de janeiro, publicada em
vários jornais, inclusive a Folha de S.Paulo. Os cinco campeões são:
Quinta no Cinema, Tela de Sucessos, Sessão das Dez, Cine Especial e
Sessão Premiada.

O programa de maior sucesso da Record, a terceira maior rede do país,
também é um filme estrangeiro: Sessão Especial. Na verdade, afora a
Globo, todos os programas das sete redes de televisão que chegam aos
dois dígitos de audiência, segundo o Ibope, são, sem exceção, filmes
estrangeiros (como o é também o primeiro lugar da Globo, a maior
audiência do Brasil, Tela Quente, que na semana em questão ficou na
frente de Celebridade, Big Brother Brasil, Jornal Nacional e da
minissérie brasileira, todos estes variando entre 35pontos e 43
pontos).

Tirante os citados, o programa que mais se aproxima dos dez pontos é
Cidade Alerta, o segundo lugar da Record, que atinge 7 pontos. O
campeão da Bandeirantes, Brasil Urgente 2, faz 5 pontos; o da Rede TV!,
Eu ví na TV, é líder de sua emissora com 3 pontos, assim como os
líderes da Gazeta (Programa Sergio Mallandro) e da Cultura (Ruppert),
que também ostentam orgulhosos 3 pontos.

Pagar a conta Quando se fica diante de um quadro assim, não sobra
espaço para dúvidas de que há algo de errado com a televisão
brasileira. Se todos os líderes de audiência são longas-metragens
estrangeiros, se Brasil Urgente, Eu Ví na TV e o Programa Sergio
Mallandro são líderes em suas redes e se essa liderança é alcançada, na
maioria dos casos, com 3 pontos de audiência, não é o público que se
deve culpar.

A distância que separa a Globo de todas as outras deve-se em grande
medida à competência da primeira, mas em sua maior parte à
incapacidade das demais de gerir as empresas e formatar suas grades de
programação. Isso quem está dizendo é o público. O curioso é que quando
o público rejeita uma cerveja, ela muda de sabor; quando rejeita uma
emissora, ela mantém o sabor - e muda a embalagem.

Se faz isso é porque acredita em alguns princípios. Acredita, por
exemplo, que a mediocridade é da natureza da televisão e atende ao
desejo do público (ainda que, pelos números, o público grite que não).
Acredita que o concentracionismo é fait accomplis na televisão
brasileira e que não há nada mais para ser feito. Acredita,
finalmente, que pode sobreviver disputando 3% de um mercado de 4
bilhões de reais, quando os números mostram que não pode.

Não é por outra razão que a tão discutida PEC da entrada do capital
estrangeiro nas empresas de comunicação, aprovada no fim do ano passado
e que modificou o artigo 222 da Constituição, até agora não deu em
nada. O ingresso do capital estrangeiro foi autorizado, mas nenhum
estrangeiro com dinheiro em caixa apareceu para investir na compra de
30% de emissoras administradas desse jeito e sobre as quais ele não
terá qualquer ingerência. O que o público brasileiro e os
mega-empresários de comunicação do mundo estão dizendo é a mesmíssima
coisa: com esse tipo de produto e esse modelo de administração, a
televisão brasileira está mergulhando num buraco do qual dificilmente
poderá sair.

Na verdade, os construtores desse tipo de conteúdo que são também os
arquitetos desse modelo familiar de gerenciamento acreditam que podem,
sim, sair do buraco - e quem tem a obrigação de puxá-los é a sociedade
brasileira, por meio do dinheiro público repassado pelo BNDES. Muita
gente, no entanto, acredita o contrário. Sustenta que o que as
televisões são devedoras e não credoras da sociedade brasileira, e que
portanto não gozam de instrumentos para fazê-la pagar essa conta. O
Fórum Nacional Pela Democratização da Comunicação, por exemplo,
conseguiu dizer algo parecido ao secretário-adjunto da Secom, Marcus
Flora, no dia 15 de janeiro.

Bolo digital

O FNDC reivindica que a ajuda do governo às empresas de mídia esteja
vinculada à "transparência do processo e ao estabelecimento de
contrapartidas sociais que busquem o desenvolvimento da comunicação
social", nas palavras de um dos líderes do Fórum, Daniel Herz. Nem
precisaria. Se os grandes empresários internacionais que fizeram
fortunas explorando empresas de comunicação acham que não é um bom
negócio investir nas empresas brasileiras do jeito que elas hoje se
apresentam, por que o Estado brasileiro haveria de achar o contrário? A
não ser, é claro, que ele se tornasse sócio das empresas e tivesse o
poder de gerenciá-las. O próprio Estado, no entanto, não tem se
mostrado um bom gerenciador do que atualmente se conhece por "televisão
pública", expressão que hoje tem no Brasil a mesma força de palavras
como "sinistro": pode querer dizer qualquer coisa, menos o que
realmente ela significa.

A chave para a construção de modelos que possam limitar a autorização
de se insultar a sociedade brasileira e ainda fazê-la pagar por isso,
como o governo chinês cobra das famílias dos dissidentes as balas que
usa para executá-los, está no estabelecimento criterioso de políticas
públicas para o setor. No final da semana passada, o Brasil mudou pela
terceira vez em pouco mais de um ano o seu ministro das Comunicações -
e de quebra substituiu o presidente da Anatel. Fez isso partindo o
coração do chefe do Executivo, como o próprio presidente definiu sua
necessidade de promover as mudanças que encaixassem o PMDB no governo.
Muito além do fato político, no entanto, há a constatação de que mais
uma vez a política de comunicações do país está no limiar do ponto
zero: anunciar uma virada que não apenas corre o risco de anular tudo
o que veio antes como, sabe-se, vai durar até o próximo fato político
que gere novas mudanças.

Políticas de comunicação, no entanto, são necessariamente de longo
prazo, porque dependem de fortes investimentos e de calços
suficientemente fortes para justificá-los. A televisão digital é um bom
exemplo. Durante anos, a Anatel, sob orientação de Luiz Schymura,
promoveu estudos de viabilidade técnica dos três padrões em competição
- e recorreu a muitos parceiros privados, inclusive do setor acadêmico,
como a Universidade Mackenzie. Quase ao mesmo tempo, o então ministro
Juarez Quadros procurava implantar uma lei da comunicação social
eletrônica que levava em conta fatores como propriedade dos meios de
comunicação, a qualidade de seu conteúdo e o respeito aos compromissos
sociais assumidos pelos concessionários.

Com a entrada do ministro Miro Teixeira e o esvaziamento de Schymura,
a discussão sobre a TV digital voltou-se, por um lado, para a
possibilidade de desenvolvimento de um padrão brasileiro que
substituísse os padrões americanos, japoneses e europeus (para não
falar no extemporâneo padrão chinês) que estavam sendo testados havia
quatro anos. E, por outro, para a divisão do bolo digital, com a
possibilidade de um reordenamento mais eqüitativo da propriedade dos
meios de comunicação.

Estaca zero

Dias antes de sair do governo, no final de 2002, o ministro Juarez
Quadros entregou a seu sucessor, Miro Teixeira, o projeto da Lei Geral
de Comunicação Social Eletrônica. Menos de 13 meses depois, no dia 21
de janeiro deste ano, o ministro Miro preparou um outro dossiê para seu
próprio sucessor, Eunicio Oliveira.

Os dois documentos simplesmente não falavam das mesmas coisas.
Quadros estava preocupado em integrar numa só política diversos
setores que são complementares - como a TV aberta, a TV por assinatura,
a produção e a propriedade dos meios de comunicação. Miro fez um
levantamento das ações do ministério previstas para 2004, onde se
destacam os gastos com os programas do Fust (Fundo de Universalização
de Telecomunicações), estimados em 40 milhões de reais - que poderiam
ser ampliados de acordo com a demanda -, e os gastos com o Funttel (de
fomento ao desenvolvimento de novas tecnologias de comunicação e
projetos de convergência tecnológica, inclusive TV digital), além de
outorgas de TVs educativas e gastos com os programas de modernização
dos Correios.

As novas prioridades do ministério das Comunicações e da Anatel ainda
estão por ser conhecidas. Pelo menos no primeiro caso (já que, no
segundo, o titular Pedro Ziller é um técnico do setor) é possível que
ainda estejam por ser desenhadas. Antes de se debruçar sobre a
evidência de que o calcanhar de Aquiles da TV digital está no conteúdo
e não no padrão de transmissão, o ministro Eunício não perderia seu
tempo se procurasse se deter por algumas horas vendo o que a maioria
das redes de televisão está oferecendo à sociedade brasileira - e em
troca de quê está fazendo isso.

As conclusões podem contar com o auxílio da simples aritmética. Quando
os melhores colocados estão fazendo 3% (e pelo menos num dos casos, o
quinto melhor colocado tem 1%) é porque a média dessas emissoras não
supera o 1%, ou menos do que isso. Se estivessem com um slide de
advertência no ar, o resultado não seria muito diferente. E se a
liderança vem com o tipo de produto com que está vindo, então fica
difícil sustentar que o dinheiro público esteja sendo aplicado na
elevação do nível cultural ou das exigências de qualidade da
população.

Até as pedras da Esplanada dos Ministérios saberão que há no leque de
produção audiovisual brasileira produtos infinitamente melhores do que
isso - tanto do ponto de vista artístico quanto do desempenho
comercial. E que se eles não estão no ar é porque as atuais políticas
de comunicação sugerem ao empresário de televisão que ele não tem
obrigação alguma de ser competitivo e muito menos cumprir com suas
obrigações constitucionais no que diz respeito à qualidade e
pluralidade de conteúdo - porque ninguém vai incomodá-lo com isso e, na
hora do buraco, o a chave do cofre da viúva está aí mesmo para
resgatá-lo.

Se haverá tempo para a construção e implantação de um política de
comunicação consistente no país antes que tudo volte, mais uma vez, à
estaca zero, ninguém é capaz de dizer. Sabe-se apenas quem são os
vitoriosos cada vez que essas políticas são proteladas. São aqueles a
quem tanto o público local quanto os empresários estrangeiros estão
virando as costas - mas que continuam acreditando que têm uma dívida a
cobrar de toda a sociedade brasileira."

TV DIGITAL E INCLUSÃO SOCIAL

Artigo publicado no sitio virtual da AMAR-Sombras:

TV DIGITAL E INCLUSÃO SOCIAL
Amar-Sombrás Assina Embaixo

Nossa Associação incluiu-se entre os signatários do documento abaixo,
a ser encaminhado ao Ministério das Comunicações.
O decreto que propõe a criação do Grupo Executivo do Projeto TV
Digital deve ser saudado como iniciativa capaz de iniciar um debate
mais amplo sobre este que será um dos mais significativos eventos nos
âmbitos cultural, social, tecnológico e político das primeiras décadas
do século XXI em nosso país. Basta constatar a amplitude do fenômeno da
televisão e multiplicar pelo alcance das ferramentas digitais,
notadamente a interatividade e o potencial de inclusão social.

O Projeto TV Digital terá enormes impactos na produção de conteúdo
audiovisual e de softwares, na construção de uma política industrial
que envolva, inclusive, a sensível área dos semicondutores (chips), na
balança comercial brasileira (através do pagamento, ou não, de
royalties), nas relações de nosso país com os blocos econômicos
internacionais, entre outras diversas áreas tão ou mais sensíveis.

Ao contrário do que nossa grande imprensa vem noticiando, não está em
jogo, apenas, a escolha de um padrão de transmissão. Mas, como a
própria adoção da TV digital somente se inicia nos países ditos
desenvolvidos, estamos, de fato, no estágio de definir o que realmente
esperamos desta tecnologia.

Ainda que conservadora, nossa televisão analógica conseguiu ser
satisfatoriamente inclusiva. Segundo dados do IBGE, cerca de 90% dos
lares brasileiros possuem uma televisão. Boa parte do seu conteúdo é
nacional (ainda que de qualidade discutível) e a confecção dos
aparelhos (graças ao sistema PAL-M) é toda feita em território
brasileiro, por técnicos brasileiros.

Temos a chance de resolver as mazelas de nossa TV, mas não podemos
perder nossas conquistas, seja na área de ciência e tecnologia, seja,
especialmente, na garantia de que cada brasileiro poderá possuir um
aparelho (agora interativo).

Uma escolha errada e poderemos produzir uma nova geração de excluídos.
Uma escolha errada e poderemos fazer da TV digital apenas um
instrumento de mercado, que forme consumidores e não cidadãos.

O momento é importante e devemos saudar a iniciativa ousada do
Ministério das Comunicações em propor a criação do GET. É significativa
a diferença diante da política limitada proposta pelo governo anterior.

Isso, contudo, não basta. Queremos, principalmente, a possibilidade de
sermos ouvidos. Não aceitamos que tal debate seja feito sem a
participação do conjunto da sociedade civil. Sabemos que, em última
instância, seremos nós os usuários desta tecnologia, nós que teremos
que arcar com boa parte dos custos (direta ou indiretamente) e nós que
sofreremos os impactos advindos, especialmente sócio-culturais.

Por isso, pedimos ao governo que: 1) aumente o prazo de consulta do
decreto que cria o GET (limitado a uma semana a partir do dia 25 de
junho de 2003); 2) realize reuniões em diversas cidades brasileiras,
chamando a sociedade civil para participar e contribuir com suas
sugestões; 3) inclua outros representantes da sociedade civil no GET
(exceto por entidades empresariais, a sociedade civil aparece no GET,
somente, na vaga facultativa do Conselho de Comunicação Social).

Em síntese, queremos participar da construção de nosso futuro.


"Democratizar a comunicação para democratizar a sociedade"

Boletim Prometheus

Instituto de Estudos e Projetos em Comunicação e Cultura
( www.indecs.org.br -
www.prometheus.org.br)

"Democratizar a comunicação para democratizar a sociedade"

Boletim Prometheus - Nova Fase - 08 de dezembro de 2004

Prometheus conta com a parceria da Fundação Ford e o apoio da Associação
Mundial de Rádios Comunitárias (AMARC), da Rede de Informações para o
Terceiro Setor (RITS) e da Editora Glasberg ACR S.A.
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Este número do Boletim Prometheus está sendo distribuído com atraso de
alguns dias por conta de sério problema que acometeu o computador do
INDECS onde o boletim é redigido. Ficamos impossibilitados de acessar
nossos dados durante este período. Pedimos desculpas pelo atraso.
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1 - Um número especial <>


2 - Um preâmbulo - Observações pessoais da <> viagem


3 - "O papel e o <> lugar da mídia na Sociedade da Informação na África
e na região árabe"


4 - Primeira mesa <> redonda sobre Comunicação Comunitária para o
Desenvolvimento Sustentável


5 - <> Reunião do Projeto de Governança Global


6 - Expediente <>

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1 - Um número especial

Esta edição especial do Prometheus trata de três eventos relacionados à
comunicação, ocorridos na cidade de Marrakech, no Marrocos, na segunda
quinzena do mês de novembro.
Inicialmente, dois relatos curtos.
O primeiro, da conferência "O papel e o lugar da mídia na Sociedade da
Informação na África e região Árabe", que aconteceu de 22 a 24 de
novembro. O evento foi organizado pela Rede Internacional de Cátedras da
UNESCO em Comunicação e pelo Governo do Marrocos, e aconteceu como
prosseguimento da primeira fase da Cúpula Mundial sobre a Sociedade da
Informação. A conferência foi também preparatória para a segunda fase da
Cúpula, que acontece no final de 2005, na Tunísia.
O segundo relato trata da Primeira Mesa Redonda sobre Comunicação
Comunitária para o Desenvolvimento Sustentável, que aconteceu no dia 21
de novembro. Organizada pela AMARC (Associação Mundial de Radios
Comunitárias), a Mesa Redonda contou com a participação de praticantes
de radiodifusão comunitária da África, América Latina, Ásia e Oriente
Médio.
O terceiro evento, que conta aqui com um relato um pouco mais extenso,
foi a reunião do Projeto de Governança Global da Campanha CRIS
Internacional. O projeto reúne ativistas de cinco países de diferentes
continentes para analisar a realidade do direito à comunicação em cada
um deles e desenvolver materiais para apoiar a luta pela sua efetivação.
O objetivo da reunião foi justamente a construção de um kit de ativismo
e capacitação que possa ser trabalhado em diversos países como forma de
auxiliar campanhas e discussões sobre temas considerados prioritários na
área da comunicação. A proposta é que cada país adapte e também
desenvolva seções nacionais desse material, possibilitando utilizar a
mesma metodologia para abordar os temas com um olhar local.
Essa edição especial do Prometheus foi possível graças a presença de
João Brant, colaborador do Boletim Prometheus, na reunião do Projeto de
Governança Global. João é membro do Coletivo Intervozes, responsável
pelo desenvolvimento do projeto no Brasil. Os relatos incluem seu olhar
pessoal sobre a viagem.
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2 - Um preâmbulo: Observações pessoais da viagem

Anunciar uma viagem para Marrakech gera necessariamente a tentação
irresistível de praticar alguma observação infame com a expressão "pra
lá de Marrakech". Quando chega a centésima piada, confesso que passa a
soar pouco original. Mas, tudo bem. Afinal, não é a todo momento que
aparece a oportunidade de dialogar com alguém que se bandeia pra lá.
Portanto, antes que perguntem: sim, chegamos a ir pra lá de Marrakech.
No dia livre alugamos um carro e subimos os Atlas, a imensa cadeia de
montanhas do norte da África. Fomos ao Marrocos e, quem diria, em vez de
camelos, vimos muita neve. No caminho, uma amostra do modo de vida da
população berbere, que habita aquela região desde a pré-história. Quase
chegando, um lago lindo, logo abaixo do topo da montanha. No topo,
alcançado por teleférico, um silêncio e uma luz que substantivam a noção
de liberdade.
Marrakech é uma cidade de pouco menos de um milhão de habitantes,
dividida em duas partes. Gueliz é a parte nova, mais moderna, com uma
arquitetura relativamente próxima da tradicional no ocidente. Mais
próxima significa, na verdade, menos longe, porque o fato é que quase
todas as casas são pintadas na cor de terra e muito poucas têm telhados.
A maioria só tem a laje, o que evidencia que realmente chove pouco por
lá. Já Medina é a parte mais antiga, murada, onde há centenas de
lojinhas/bancas de artesanato de todo tipo, de roupas, de ervas e
especiarias, enfim, onde a cidade acontece no seu melhor estilo.
A imensa praça central da Medina, Jemaâ el-Fna, é um espaço público por
excelência. Ali estão os "curandeiros", os encantadores de serpente, as
dezenas de barracas de suco de laranja, os músicos tradicionais e todos
os tipos de performáticos. É para lá que se dirige grande parte da
população ao entardecer, reunindo-se em pequenos círculos em volta dos
diversos "personagens". O cheiro de piche e asfalto sentido a todo
momento parece vir do combustível das incontáveis mobiletes que andam
por lá, dividindo espaço com milhares de bicicletas.
Para quem nunca havia ido a um país de cultura árabe, saltou aos olhos a
tradição mercante, característica milenar de boa parte deles, muito
forte em Marrakech. Andando pela Medina, a sensação é de que estamos
dentro de um grande Mercado Modelo, mas com dimensões de uma cidade. A
experiência de barganhar em quase tudo que se compra é curiosa num
primeiro momento, estimulante em um segundo, mas depois de cinco dias
parece insuportável. Permanece a sensação de que mesmo que você pague
30% do preço inicialmente proposto (o que chegou a acontecer), eles
sempre estarão levando vantagem - ainda que isso não seja
necessariamente verdade. Fato mesmo é que a cultura da barganha impede a
concorrência, já que a comparação de preços torna-se impossível.
Do ponto de vista da violência tradicional, a cidade parece bem segura,
mas a sensação (envolta de um preconceito ocidental, confesso) de estar
sendo constantemente enganado relativiza essa segurança. Pegávamos taxis
todos os dias (há uma carência de transporte público na cidade),
fazíamos praticamente o mesmo percurso, e apenas uma vez conseguimos um
taxista que ligasse o taxímetro. Em todas as outras, o preço foi
combinado ao entrar no carro. Em nenhuma delas pagamos próximo do valor
indicado daquela vez no taxímetro. No mínimo, 30% a mais, sendo que no
início chegamos a pagar, sem saber qual era o preço médio, quatro vezes
o valor real.
Não se pode dizer que o lado opressor da cultura mercante seja
exclusividade do oriente. O que é um taxista pedindo 30 Dirhams para uma
corrida que vale 7 Dirhams frente a qualquer indústria ocidental que faz
a mesma coisa em escala industrial? A grande questão é que a ausência de
dissimulação ainda assusta a nós, acostumados ao capitalismo selvagem,
mas de "boas maneiras".
Também nesse sentido, ainda que não possa julgar a cultura árabe pelo
visto no Marrocos (nem tomá-la como una e única), fica uma sensação
dúbia. Ao mesmo tempo que ela possibilita uma variedade de manifestações
culturais (especialmente a música, com uma harmonia modal riquíssima),
ela em vários momentos aplaina as diferenças e uniformiza (no pior dos
sentidos) hábitos e visões. Além disso, como em grande parte do oriente,
a opressão às mulheres é extremamente presente, embora o Marrocos seja
um dos países árabes com menos restrição no uso de vestimentas.
Foi nesse cenário em que transcorreram os três eventos aqui relatados.
Disso tudo, fica a ânsia por tentar compreender o que pode existir de
comum sobre o lugar da comunicação em culturas tão distintas.
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3 - "O papel e o lugar da mídia na Sociedade da Informação na África e
na região árabe"

A conferência "O papel e o lugar da mídia na Sociedade da Informação na
África e região Árabe", que aconteceu de 22 a 24 de novembro, reuniu
delegados de vários países africanos e árabes, e terminou com a
publicação da Declaração de Marrakech.
O evento foi um prosseguimento da primeira fase da Cúpula Mundial sobre
a Sociedade da Informação, e também preparatório para a segunda fase,
que acontece no final de 2005, na Tunísia.
O texto publicado afirma pontos importantes, como a necessidade da
pluralidade de mídias, a importância de tornar realidade o Artigo 19 da
Declaração Universal dos Direitos Humanos, a necessidade de observar a
questão de gênero (tema tão caro nos países árabes) e o fato de a
diversidade cultural ter que ser estimulada, não apenas preservada. Um
dos principais trechos da Declaração diz que "a função da mídia em
produzir, agrupar, checar e distribuir notícias e conteúdo diversos,
incluindo o nível comunitário local, é vital. Quadros legais e de
regulação são necessários para estimular a comunicação comunitária. Para
este fim, essas disposições devem ser não-discriminatórias e prover uma
alocação de freqüências eqüânime por meio de mecanismos transparentes".
Especialmente em virtude desse ponto, a AMARC (Associação Mundial de
Rádios Comunitárias) considerou positivo o texto que sai de Marrakech, e
afirma que ele poderá ser usado como instrumento por aqueles que
pretendem ver a Cúpula Mundial sobre a Sociedade da Informação afirmando
e propondo condições para a manutenção das mídias comunitárias. A AMARC
salienta a importância da Declaração de Marrakech como um novo passo no
reconhecimento da mídia comunitária em todo o mundo.
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4 - Primeira mesa redonda sobre Comunicação Comunitária para o
Desenvolvimento Sustentável

A mesa redonda promovida pela AMARC (Associação Mundial de Rádios
Comunitárias) tinha como objetivo promover um diálogo entre atores chave
dos setores de comunicação e desenvolvimento focados em alcançar e
monitorar as Metas do Milênio. O foco dos debates foi a situação na
África e um dos principais temas foi a criação de uma força-tarefa que
leve à constituição de um Fundo de Desenvolvimento para a Mídia
Comunitária na África.
Do evento saiu também uma "Declaração de Marrakesh". O documento
salienta a importância da mídia comunitária para permitir o acesso de
participação de todos nos processos de comunicação, "especialmente as
comunidades mais pobres e marginalizadas". Os delegados da AMARC
presentes na mesa redonda salientaram ainda que o quadro regulatório de
proteção e estímulo à mídia comunitária é, de modo geral, muito frágil.
Um dos principais questionamentos foi o uso que muitos países fazem do
argumento da "limitação técnica" para não permitir a presença de rádios
comunitárias no dial. Segundo o documento, "é preciso insistir que o
planejamento do espectro e da regulação deve garantir espectro e
capacidade de canais suficientes, e padrões técnicos apropriados, para o
desenvolvimento das mídias comunitárias tanto no ambiente analógico como
no digital".
Por fim, a força-tarefa para recursos e financiamento da mídia
comunitária foi criada, e terá como papéis levar à frente as propostas
apresentadas na declaração e avaliar sua implementação.
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5 - Reunião do Projeto de Governança Global

De 25 a 27 de novembro aconteceu a reunião do Projeto de Governança
Global da Campanha CRIS Internacional. O objetivo era a construção de
materiais para auxiliar na capacitação para a atuação na militância pelo
direito à comunicação e na construção de campanhas públicas. Além dos
membros da coordenação internacional do projeto, representantes de
quatro dos cinco países participantes no projeto estiveram presentes:
Brasil, Colômbia, Itália e Filipinas. O Quênia acabou não mandando
representantes.
A primeira observação dos participantes foi a da eficácia do direito à
comunicação como um terreno para ação comum. Ao mesmo tempo que o
conceito é amplo o suficiente para agregar as diferentes realidades de
cada país, ele estabelece uma referência universal da comunicação como
direito, o que para todos os casos significa uma redefinição do lugar da
comunicação e de seus padrões de organização.
No entanto, para sair do direito à comunicação como uma noção genérica e
materializar o que ele significa na prática, o Projeto de Governança
Global teve como primeira tarefa a definição de um quadro de referência
genérico, estabelecendo parâmetros e indicadores para as diversas áreas
que fazem parte desse conceito, como propriedade de mídias, diversidade
cultural, direitos de propriedade intelectual, privacidade, participação
da sociedade civil nas decisões sobre comunicação, entre outros.
O passo seguinte foi a aplicação desses indicadores em âmbito local, nos
cinco países parte do projeto. A pesquisa está sendo finalizada e
permite uma leitura de diferentes realidades do direito à comunicação,
numa estrutura que permite observações empíricas e comparativas entre os
países. Como última etapa do projeto, a construção dos materiais para
capacitação e ativismo na área.

Parâmetros comuns

Para a construção desses materiais, era preciso identificar prioridades
de ação comuns entre os países. Dois temas se destacaram como presentes
em todos eles. O primeiro, propriedade de mídias, e alguns lugares
significa um enfrentamento à censura estatal; em outros, aos monopólios
e oligopólios privados. O segundo tema que surgiu como prioridade foi
diversidade cultural, entendida em duas dimensões, nacional e
internacional, especialmente nos assuntos de mídia.
Na dimensão internacional, ela significa a proteção à produção cultural
das diversas nações, a liberdade de praticar cotas de tela e outros
mecanismos que permitam que o poder econômico não se imponha na
definição do que é veiculado e transmitido. Em suma, no tratamento da
comunicação e da cultura como direitos, e não como serviços. Na dimensão
nacional, ela significa proporcionar condições equânimes para as várias
diversidades se fazerem representadas: raciais, de gênero, de culturas e
regiões, entre outras. Esse tema está extremamente presente, e no ano de
2005 a UNESCO promoverá uma Convenção sobre Diversidade Cultural, que
poderá influir nos rumos e definições sobre o tema no âmbito da
governança global.
A partir de uma proposta levada pela equipe brasileira, chegou-se a uma
definição que une as duas prioridades. Trata-se do tratamento em
conjunto de algumas questões que permitiriam uma "Apropriação pública da
mídia". Essa idéia está baseada na necessidade de inverter o paradigma
atualmente presente, de que os meios de comunicação têm essencialmente
fins comerciais.
Para os participantes, essa definição reconhece a necessidade de sair
tanto do controle estatal como do controle privado. Para isso, segundo
eles, seriam necessárias duas ações fundamentais: o fortalecimento de
sistemas públicos de comunicação e ações de sensibilização e apropriação
da mídia por toda população, fazendo com que a prática da comunicação
favoreça a apropriação e o entendimento da linguagem e da técnica.

Na prática

Definindo essa como uma prioridade internacional, o Projeto reconheceu
que em cada um dos países é possível buscar diferentes instrumentos para
a consecução de objetivos semelhantes, tais como:
- fortalecimento de emissoras e mídias públicas, com condições
equânimes às da mídia comercial;
- estímulo à pluralidade e diversidade de meios e conteúdos;
- possibilitar a todos a participação (em maior ou menor nível)
na produção e realização dos meios de comunicação;
- participação democrática nas decisões e na construção de
políticas;
- desenvolvimento de uma compreensão crítica da sociedade no
tocante à produção e leitura da mídia
Foram listados, então, uma série de recursos que poderiam compor esse
agrupamento de estratégias para capacitação e campanhas. Entre eles,
materiais para treinamento, apresentações e textos curtos sobre o
direito à comunicação e peças culturais e publicitárias para
disseminação da idéia, numa espécie de guia de planejamento para
campanhas públicas. Serão reunidos materiais de diversas entidades e
organizações que já trabalham de alguma forma com esses temas, ou que
podem servir de exemplos de campanhas bem sucedidas.
Além disso, serão desenvolvidos materiais específicos até março,
cobrindo os mais diversos níveis de discussão sobre o tema. Haverá desde
textos acadêmicos até materiais de educação popular, com dinâmicas de
comunicação e sensibilização baseados no método de Paulo Freire. O
objetivo é dialogar com os diversos setores da sociedade, buscando
especialmente os movimentos sociais e a sociedade civil.
Depois de desenvolvido um material "genérico" internacional, cada país
fará a sua adaptação e desenvolvimento de seções locais desse material,
possibilitando utilizar a mesma metodologia para abordar os temas com
olhar local.
No Brasil, o Intervozes pretende desenvolver esse material pela CRIS
Brasil, de modo a fazê-lo responder às prioridades brasileiras para
atuação da sociedade civil na luta pelo direito à comunicação. Assim,
será possível ter espelhado no material brasileiro os diversos saberes e
especialidades das diversas entidades envolvidas na CRIS.
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6 - Expediente

"Quanta verdade um homem é capaz de suportar?" (Nietzsche)
Envie críticas, sugestões e comentários - Tel.: 55-21-2247-9219 -
E-mail: indecs@indecs.org.br
Se não desejar mais receber este boletim, basta nos comunicar.
Boletim Prometheus é uma publicação semanal do Instituto de Estudos e
Projetos em Comunicação e Cultura (INDECS).
Prometheus acredita que o conhecimento deve ser livre e, portanto, opera
a partir do princípio do "copyleft". Se desejar usar as informações
deste boletim, basta citar a fonte. E bom uso!
Editor-responsável: jornalista Gustavo Gindre (gindre@indecs.org.br) -
DRT 99279/92

Saturday, December 11, 2004

Sobre Rádios Comunitárias

Links rápidos e interessantes sobre comunitárias, e abaixo, uma notícia sobre regulamentação


sobre comunitarias no rio
http://www.universomusical.com.br/materia.asp?mt=sim&cod=me&id=306

sobre legalizacao
http://www.comunicacao.pro.br/setepontos/12/radcom.htm

geral, rs e sc, leis, consuletc
http://www.sulradio.com.br/radcom.asp

noticia cadastramento
http://www.serpro.gov.br/noticiasSERPRO/20040216_07

noticia sobre projeto de regularizacao
http://www.unale.org.br/M007/M0074021.asp?txtID_PRINCIPAL=466

site da radio favela, uma comunitaria antiga e
importante de BH
http://www.unale.org.br/M007/M0074021.asp?txtID_PRINCIPAL=466

historia e como funciona, arquivo pdf, do viva rio,
2002
http://www.ambiente.sp.gov.br/educ_2004/cursos/Palestrantes/010704/Sebastiao_Santos2.pdf

forum, lista, noticias, muito bom
http://www.radiolivre.org/

site geral sobre comunitarias: leis e funcionamento
http://comunitarias.sites.uol.com.br/

no guia de midia, links sobre radios independentes
http://www.guiademidia.com.br/radios/radioscomunitarias.htm

Borges/Novas Tecnologias em Comunicação
http://www.ielusc.br/~borges/ntc/2003/pp/


......................................
Projeto regulariza as rádios comunitárias

A Câmara está examinando o Projeto de Lei 4294/04, do
deputado Edson Duarte (PV-BA), que regulariza as
rádios comunitárias. A proposição revoga o artigo 183
da Lei Geral das Telecomunicações, que prevê processo
penal contra os responsáveis por essas emissoras.
De acordo com o autor, a Agência Nacional de
Telecomunicações (Anatel) e a Polícia Federal aplicam
indevidamente o artigo 183, para criminalizar
emissoras de baixa potência e rádios comunitárias não
autorizadas. "Se conceitualmente e constitucionalmente
radiodifusão e telecomunicações são entes distintos,
como aplicar a ambos o mesmo dispositivo? Há um erro
evidente nessa ação", argumenta o deputado.

Punição injusta
Edson Duarte explica que, em muitos casos, as rádios
comunitárias já têm pedido de autorização protocolado
junto ao Ministério das Comunicações e só não
receberam a outorga por demora nos procedimentos. "Em
outros casos, a autorização é possível, mas o
Ministério ainda não expediu o comunicado de
habilitação previsto no artigo 9 da Lei das Rádios
Comunitárias", acrescenta Duarte.
Segundo o deputado, as rádios comunitárias estão sendo
punidas injustamente, pois há inconstitucionalidade na
aplicação do dispositivo de repressão às emissoras
clandestinas. "O ideal seria que o Ministério das
Comunicações se organizasse e se aparelhasse
adequadamente para analisar os processos pendentes e
publicasse todos os comunicados de habilitação
necessários em tempo curto", conclui o deputado.

O que é uma rádio comunitária
O Serviço de Radiodifusão Comunitária foi criado pela
Lei 9612/98, regulamentada pelo Decreto 2615 do mesmo
ano. Trata-se de radiodifusão sonora, em freqüência
modulada (FM), de baixa potência (25 Watts) e
cobertura restrita a um raio de um quilômetro a partir
da antena transmissora.
Podem explorar esse serviço somente associações e
fundações comunitárias sem fins lucrativos, com sede
na localidade da prestação do serviço. As estações de
rádio comunitária devem ter uma programação
pluralista, sem qualquer tipo de censura, e devem ser
abertas à expressão de todos os habitantes da região
atendida.

Tramitação
O projeto pode ser aprovado em caráter conclusivo e
será analisado pelas Comissões de Ciência e
Tecnologia, Comunicação e Informática; e de
Constituição e Justiça e de Cidadania.

Friday, December 10, 2004

Ponto de partida

Meios de Comunicação 06/12

Ponto de partida:
Entender os critérios das Concessões.
Saber quais são os mecanismos que regem o conteúdo veiculado nas mídias.
Provar que a Produção Cultural Brasileira não está sendo totalmente atendida.
Gerar banco de dados de Rádios Rêde
Criar política pública que norteie todas as emissoras.

96% da produção brasileira é "independente"

Propostas:
Projeto "Uma hora de programação gratuita"
Criar Rádio Virtual do FPPM
Contemplar a todos com lei de imposto
A não repetição de músicas como um anti-jabá
Centrar fogo na televisão
Criar programa bancado por Associação de Gravadora ex ABMI
Criar condições LEGAIS para aumentar o espaço musical regional

Mídias disponíveis no mercado:

Eletronicas: TV pública, privada e comunitária / Rádio pública, privada e comunitária/ DVD / CD / Internet / MP3 e similares / Telefone Celular / Carro com Auto-Falante / Trio Elétrico / Telemarketing / Espera Telefonica / Vídeo

Impressas: Jornais / Revistas / Filipetas / Outdoor / Mala Direta / Vidros de ônibus e Taxis / Metrô

Outros Meios: Teatros / Bares / Rua / Festas Particulares / Escolas



Onde Temos Penetração:

Eletrônicas: TV pública e comunitária / Rádio pública, privada e comunitária/ DVD / CD / Internet / MP3 e similares / Telefone Celular / Carro com Auto-Falante / Telemarketing / Espera Telefônica / Vídeo

Impressas: Jornais / Revistas / Filipetas / Mala Direta

Outros Meios: Teatros / Bares / Rua / Festas Particulares / Escolas



Mídias de Grande Penetração:

Eletronicas: TV Privada / Rádio Privada / Internet / Carro com Auto-Falante

Impressas: Jornais / Revistas / Outdoor / Vidros de ônibus e Taxis

Outros Meios: Rua / Escolas



Perguntas:

1.Qual a importância da mídia numa determinada cultura?

2.O que representa para nosso trabalho a possibilidade de torná-lo conhecido de um público cada vez maior?

3.Quais são os mecanismos que regem o conteúdo veiculado nas mídias?

4.Que atitudes devemos tomar para estarmos em contato direto com todo tipo de público?

Caito Marcondes