Sunday, May 29, 2005

De Antonio Adolfo para Sergio Sa Leitao- maio/2005

Caro Sergio

Gostaria de reforcar minhas sugestoes ao Programa de apoio a Exportacao de Bens Culturais no que tange a Musica Brasileira.

Acho que ha um equivoco ao se referir as gravadoras integrantes da ABMI como gravadoras independentes. Essas gravadoras sao simplesmente pequenas gravadoras e gravadoras de medio porte. Existem as "majors" e as gravadoras de pequeno e medio porte, cujo objetivo eh, em grande parte, o mesmo de qualquer empresa que vise lucros. Na verdade apropriaram-se do termo "independente", prestigiado pela imprensa por muito tempo (desde que alguns musicos investiram do seu proprio bolso para poder mostrar seu trabalho, sem interferencias, num movimento nacional iniciado nos anos 70), e utilizam os mesmos contratos leoninos que as grandes gravadoras sempre utilizaram. Algumas dessas gravadoras "independentes", inclusive, pagam jaba para terem seus produtos veiculados na midia e pertencem a fortes grupos economicos. A ABMI congrega esse grupo elitizado de pequenos e medios selos (gravadoras) tambem apropriando-se do termo Independente, cobrando uma taxa que os selos dos proprios musicos nao podem arcar. A ABMI mantem, inclusive, convenios com entidades como a ABEM , Associacao Brasileira das Editoras de Musica, editoras essas que cobram dos musicos independentes altas taxas de “advance” pra poder liberar a inclusao de uma musica editada por qualquer dos seus associados em um disco de um musico produtor independente. No caso dos Associados à ABMI essa taxa eh dispensada.

O Projeto em pauta nao pode se esquecer de, democraticamente, abrir inscricoes para todos e prestigiar os verdadeiros musicos independentes, empresarios de si mesmos (nao so em discos mas tambem em apresentacoes ao vivo). Esses verdadeiros produtores independentes, que bancando do proprio bolso suas producoes muitas vezes de vanguarda e ousadas, acabam marginalizados por nao conseguirem adentrar o mercado de discos e shows.

Sugiro, portanto, uma selecao nao elitizada e, sim, algo que possa contemplar tambem esses produtores/musicos.

Acho que deve-se abrir inscricoes a todos para que uma comissao competente possa selecionar o que ha de mais representativo. Nao adianta, mais uma vez, prestigiar-se somente os famosos, que ja tem um Mercado conquistado. Uma combinacao de artistas de renome com os desconhecidos, de grande talento, seria um formato justo e economicamente viavel, como ja comprovado pelo Projeto Pixinguinha em diferentes ocasioes.

Quanto a disponibilizacao gratuita de conteudo para a veiculacao em TV, nao seria uma forma de desprestigiar nossa producao?

Coloco-me a disposicao para a troca de ideias referente ao Programa.

Antonio Adolfo

Saturday, May 21, 2005

O produto musical transmitido no Brasil - Silvia de Lucca

“O produto musical transmitido no Brasil e aspectos sócio-educativos-culturais de sua influência” Silvia de Lucca

RESUMO: o material musical transmitido pela mídia no Brasil, como exemplo de simplificação, limitação e padronização impostos pela indústria cultural. Através de seu poder de alcance e influência, somado à escassa presença de cursos de música na rede escolar, os meios de comunicação de massa estabelecem-se como o mais forte parâmetro musical nacional nas últimas décadas, formador de opinião, hábito, gosto e comportamento.


Partindo-se do princípio que a ausência de um planejamento educacional ampla e profundamente organizado e eficazmente executado implicaria em uma condição para a estagnação do desenvolvimento generalizado de um povo, é que ao Brasil caberia, no momento, a preocupação e a dedicação daqueles mais conscientes e capazes para esta causa. No plano internacional, sobretudo na atual condição da globalização que a todo mundo se estende, sociedades não trabalhadas cultural e intelectualmente para o novo milênio, favorece sua marginalização ou sua submissão em diversos setores perante outros mais bem preparados.
Escreve Hélio Sena (1989, p.11).
“Todos sabemos que a identidade cultural é o principal fator de coesão de um grupo. Povo que perdeu sua identidade é mais fácil de ser dominado” .

Gisela Ortriwano (1985, p.62), igualmente, faz uma referência alertando-nos diretamente no mesmo sentido:
“As potências internacionais, sem exercerem qualquer pressão diplomática - e até obtendo lucros -, conseguem influenciar o resto do mundo não só com a divulgação da informação em si, como também da interpretação e emissão de opinião” .

Frederico Moraes (1975, p.54) é mais específico, quando atribui à familiaridade com a arte, a única chance de o indivíduo defender-se dos perigos da alienação e do anonimato que hoje ocorrem via mídia:
“Só quem está permanentemente aberto à busca do novo e do original, quem cria todo o tempo, pode enfrentar a massificação e o caráter repressivo da sociedade atual, a massagem contínua que representa a mensagem publicitária” .

Jorge Coli (1981, p. 127) enfatiza:
“Num sistema de ensino voltado para a formação a mais pragmática e tecnológica, sob o desinteresse e a incompetência dos ‘responsáveis’, e bombardeado por emissoras de rádio e TV regidas pelo princípio absoluto do lucro, você se encontra numa situação de grande miséria cultural” .

A partir dessas premissas, entendemos ser fundamental entender e incluir a arte como fator básico de civilização, o que significa conquistar o interesse e quiçá a participação da nação como um todo em prol de seu próprio progresso por outras vias que não somente a econômica.

Quanto ao ensino musical oficial no Brasil, foi introduzida por Decreto-lei em 1931 a obrigatoriedade da aula de música para todos os níveis escolares, época em que surge a proposta pedagógica de Villa-Lobos, cujo programa deveria ser implantado em todo o território nacional. Este pretendia uma educação estética, social e artística embasada no canto coletivo . Contudo, conforme o descompromisso para com a atividade artística de modo geral que veio se solidificando nas escolas a partir do período da ditadura, e segundo a idéia cada vez mais valorizada da necessidade da educação pragmática para uma sustentação econômica da nação, foi cultivada de modo ininterrupto e crescente a concepção de música como atividade fútil, supérflua e assim elitista. Estes conceitos, uma vez generalizados e sedimentados, contribuem para que não tenhamos consciência do poder que a música de fato tem sobre o ser humano - muito além e mais profundamente que aquelas funções descomprometidas - e nem tão pouco consciência do que somos, do que temos, e do que queremos.
Como uma infeliz coincidência, durante este período em pausa, afirmou Júlio Medaglia (1988, p.172;174)
“a música de repetição que ele [Villa-Lobos] tanto temia, transformou-se na veiculação de um vasto detrito mercadológico, sem valor cultural e artístico, que grandes cadeias internacionais e nacionais de tráfico sonoro despejam pelo país afora sem que sua gente – analfabeta musicalmente e sem governantes sensíveis ao problema – tenha meios de rejeitar” .

Discutir sobre Educação Musical atualmente, implica quase que necessariamente em não ignorar sua relação direta com o poder de influência dos meios de comunicação de massa, ou seja, a polêmica questão do papel destes como formadores de gosto e opinião, e mesmo de comportamento. Alertou Nereide Schilaro - uma vez responsável pela Educação Musical na Secretaria Municipal de Educação em São Paulo - que conhecer música somente pelas rádios e TVs e, naturalmente, passar a valorizar apenas o tipo de produção que a mídia veicula, é assim um perigo a que está sujeito com freqüência aquele que nunca esteve especialmente envolvido com uma atividade musical ou que ignora por completo o conhecimento desta. Vale lembrar o quanto o material musical veiculado por eles está absolutamente presente em nosso cotidiano moderno, inclusive sem a nossa consciência, até mesmo contra nossa vontade, em quase todos os lugares onde estejamos, em quase todas as situações que vivemos.

No tocante ao tipo de ascendência que os meios de comunicação de massa exercem sobre o público ouvinte, eles têm difundido um repertório limitado, homogêneo e repetitivo nos mais diversos aspectos e elementos musicais, tais como época, duração, local de origem, gênero/estilo, melodia, ritmo, dinâmica, harmonia, contraponto, instrumentação, forma, linguagem, fraseado, articulação.
Assim como qualquer outro objeto da moda - conforme vem sendo observado, testemunhado, mas pouco documentado em nosso país - o repertório musical está significativamente estandardizado embora, intencionalmente ou não, seja apregoado pelos próprios meios que o difundem como diversificado, planejado para atender às mais variadas preferências e exigências, conforme se caracteriza a tão heterogênea sociedade em nosso país.
No campo musical - no referente aos diferentes processos de aprendizagem e desenvolvimento auditivo - a mera repetição de estímulos sonoros idênticos ou semelhantes é fator determinante, levando à familiaridade e até mesmo ao vício neles mesmos. A distinção na escuta, no caso, fica a critério unicamente do maior ou menor grau de atenção, conscientização e reflexão envolvidos em tal prática, habilidades estas desenvolvidas – ou não – sobretudo durante a formação escolar, mais ou menos influenciadas pela mídia. Esta, por sua vez, faz-se importante enfatizar uma vez mais, tem sua presença garantida atualmente nos mais variados momentos e locais, e nas mais distintas sociedades. Assim sendo, torna-se imprescindível considerar e pesquisar em nossa realidade, o papel educativo musical tanto das escolas como dos meios de comunicação de massa, como os grandes responsáveis pela caracterização da audição musical dos mais diversos tipos de público.

Com raras exceções, um “pacote musical” bastante característico tem chegado à maior parte do público brasileiro nas últimas décadas, justamente quando o projeto de musicalização em escolas públicas perdeu definitivamente seu aval, para não sobrar mais que poucos arremedos de um sonho de democratização do ensino que alguns defendem como genuíno, ou excepcionais fenômenos de qualidade graças à força heróica de pessoas ‘teimosas’.
Em busca de ampliar a compreensão dos muitos aspectos envolvidos neste tema, cremos cabível a tentativa de delinear o que entendemos como uma influência natural de distintas mas conectas circunstâncias, em que as chamadas contracultura e cultura de massa surgiram como reflexo, passando automaticamente a dar continuidade ao sistema, por proporem e reforçarem novas atitudes, tanto ideologicamente como na prática. Neste sentido, exemplificaremos a seguir o que julgamos como um generalizado sintoma musical nacional, através de dados recentes e ainda atuais - logo mais facilmente identificáveis:

1. Ausência quase que total de uma real Educação Musical em todos os níveis escolares, de instituições tanto públicas quanto privadas;
2. Ausência nas escolas, de professores formados ou especializados em música, para ministrarem esta disciplina, no caso de ela existir;
3. Preocupação dos professores responsáveis em “ensinar” música nas escolas, tendo como principal ou mesmo único objetivo, o lazer, o relaxamento, a interação entre os alunos e a desinibição de alguns;
4. Conservatórios e cursos universitários de música em grande parte desatualizados e pouco eficientes, com estrutura curricular embasada ou similar a realidades distintas da brasileira;
5. Proliferação de escolas livres de música com cursos normalmente restritos, atendendo quase que exclusivamente aos ditames da moda (ensino dos instrumentos violão, teclado, guitarra elétrica, baixo e bateria); cujos professores raramente têm ampla formação musical e larga experiência de atuação;
6. Inexistência na maior parte das instituições educacionais e sociais de grupos instrumentais como orquestras, bandas, fanfarras e corais;
7. Repertório musical que, de modo crescente, tem chegado ao ouvinte através de meios eletro-eletrônicos, e menos por músicos executantes ao vivo;
8. Expansão quase ininterrupta da indústria fonográfica brasileira desde a década de 60, sendo talvez ameaçada somente nos últimos anos pela difusão musical via internet e pelo mercado da falsificação (“pirataria”);
9. Apresentações musicais, sejam elas ao vivo ou não, que se limitam exageradamente a alguns estilos e gêneros, os quais podem ser englobados na denominação ‘música popular de massa’, conhecida como ‘música pop’;
10. Rádio, televisão, cinema, teatro, publicidade e computadores que veiculam majoritariamente músicas comerciais, que acima de tudo correspondem ao interesse da grande indústria fonográfica;
11. Corriqueira utilização da terminologia MPB-Música Popular Brasileira, a qual, embora contenha a adjetivação ‘brasileira’ em seu termo, estendeu-se e gradativamente incluiu características não nacionais em sua concepção, apesar de sempre ter excluído determinados gêneros de fato brasileiros, principalmente aqueles não provenientes dos grandes centros econômicos do país;
12. Escassez de apresentação e difusão do repertório musical autenticamente regional ou folclórico, aqueles oriundos das regiões brasileiras e estrangeiras não urbanas ou de grandes metrópolis;
13. Apresentação e difusão do repertório de música de concerto bem limitado, resumindo-se geralmente a alguns poucos compositores europeus dos séculos XVIII e XIX, e acompanhado de chavões enganosos, tipo: música dos grandes mestres, música para relaxar, música de qualidade, música elitista, música séria;
14. Repertório musical religioso tendendo à música de mercado - independente do credo - que supervaloriza o texto e praticamente ignora a característica musical propriamente dita, muitas das vezes expressando ambos mensagens contraditórias entre si;
15. A figura do músico, especialmente a do cantor, usualmente substituída em igual status pelos show men, animadores de palco, humoristas, pessoas carismáticas e todos os demais interessados na atividade, porém sem necessariamente possuir para tanto qualquer conhecimento musical ou técnico vocal, prático ou teórico, nem mesmo aptidão natural;
16. Desconhecimento da existência e da importância do estudo de música – acadêmico ou auto-didata – no estabelecimento e desenvolvimento de uma carreira profissional duradoura, seja qual for o gênero ou estilo a que se dedique;
17. Concepção de estudantes de música ou de músicos inexperientes que a simples gravação de um CD seja garantia para torná-los conhecidos do grande público, e que “estourar” em sucesso, fama e riqueza seja praticamente uma conseqüência natural;
18. A figura do maestro usualmente substituída, inclusive em semelhante status, pelo DJ (disc jockey), que “rege” com sua “batuta eletrônica” os sucessos do momento, ou melhor, que colabora para a obtenção desse sucesso;
19. Divulgação dos eventos musicais quase que exclusivamente restrita a anúncios e matérias sobre os super stars, em geral cantores, em grande parte estrangeiros (mais precisamente norte-americanos);
20. Desaparecimento de crítica musical na imprensa escrita de grande circulação, tendo sido substituída por comentários discográficos e sobre shows, como: lançamentos de CDs no mercado; aparecimento de novas bandas; características de espetáculos musicais;
21. Bibliografia musical direcionada ao ouvinte leigo normalmente ineficiente para nossa realidade, a qual normalmente subestima ou superestima o leitor;
22. Existência na televisão de festivais ou concursos de música tendenciosos, que favorecem a continuidade do sistema vigente em que o mesmo material musical divulgado pelos mesmos nomes têm os melhores espaços.

Sendo a arte agregadora natural de distintas expressões, materiais e recursos, sugere que as características musicais acima citadas, são uma conseqüência natural de nossa realidade atual, e não compreendem uma exceção mas, ao contrário, estão mais ou menos estandardizadas em praticamente todas as regiões do país.

Refletindo sobre estes que consideramos ‘sintomas’, e procurando conferir quão identificáveis são em nosso cotidiano, sintetizados e simbolizados nas programações que prevalecem nos meios de comunicação de massa, parece possível conceber, sem correr o risco de fazer-se referências absurdas, sustentadas em hipóteses infundadas ou adivinhações, que todo um sistema coerente e muito bem articulado predomina e, tal e qual uma bruma, a todos envolve indistintamente. O brasileiro compreende, em geral, um povo reconhecidamente musical, que espontaneamente, no seu cotidiano, parece justificar o ditado popular: Quem canta [ou ouve música] seus males espanta. Na maior parte das vezes, sem consciência desenvolvida desta sua característica, e sem usufruir de um processo de racionalização que pode complementar a experiência artística, pode-se especular que ao povo brasileiro é propiciado ter a música no sangue [e no pé], mas não tê-la na cabeça. E mesmo que alguns aleguem a naturalidade desse fato, que se admita tratar-se de um fenômeno cultural, mesmo assim é passível de ser questionado: não estaria há muito sendo sustentado por circunstâncias facilitadoras e inibidoras ou, para ir ainda além, não estaria instalado total ou parcialmente graças ao interesse e benefício de alguns poucos, que têm como álibi a concepção geral do talento natural de nossa gente para aproximar-se de determinadas músicas e ignorar ou rejeitar outras?
O fato é que, uma vez que a população em geral adquira o contato e o saber que lhe é de direito, estará apta e livre para usufruir ou não, inclusive o que hoje possa ser chamado de “elitista”. Este adjetivo terá sua existência garantida somente nas sociedades em que houver aqueles que não têm condições de alcançá-lo. Da mesma forma, o “gosto popular” só existe porque está implícita ou explicitamente relacionado aos que não puderam passar pelo processo de educação formal ou “de berço”. Em uma sociedade homogênea quanto ao seu nível de escolaridade e educação generalizada, tem-se o “erudito” e o “popular” simplesmente como estilos ou gêneros mais ou menos distintos, porém sem conotações outras, pejorativas e excludentes, relacionadas a nível sócio-cultural-financeiro, como de praxe ocorre em nosso país.
Acreditamos que o verdadeiro processo de educação ocorra, quando proporciona aos seus cidadãos, indistintamente, meios necessários para que possam aproximar-se e familiarizar-se com vivências dos mais variados tipos e diferentes níveis de qualidade; quando possibilita conhecimento amplo e genérico suficiente para que se tenha real opção de escolha quanto ao objeto em si e a maneira como com ele envolver-se, usufruir e, se for o caso, gostar e adquirir. Como simplificou a psicóloga e empresária Viviane Senna: - “Educar é possibilitar que as pessoas se apropriem do bem mais valioso da sociedade atual: o conhecimento”.
Neste momento, julgamos importante esclarecer a diferença quanto ao implícito papel educativo entre dois modelos musicais distintos, que aparecem atualmente nos veículos de comunicação de massa em geral, em nível nacional e internacional, com raras ressalvas: O primeiro, em muito maior proporção em nosso país, caracteriza-se através do envolvimento do ouvinte com uma prática musical limitada exclusivamente a determinados estilos e gêneros, simplificada, repetitiva, sem compromisso com a informação, amplitude e conteúdo da programação, e menos ainda com o papel educativo desse material, visto sobremaneira pelos responsáveis como produto de mercado. Trata-se de uma realidade que, mesmo supondo não intencional em princípio, limita o ouvinte à inexperiência sonora, à falta de parâmetros, à conseqüente ignorância musical generalizada, situação esta, por sua vez, absolutamente favorável à criação e desenvolvimento de ardilosos mecanismos que procuram direcionar o ouvinte para o interesse que mais convém à indústria cultural e ao sistema capitalista: à compra compulsiva sem exigência. Neste caso, a música como entretenimento parece ser a mais visada, uma vez que o “não pensar” e o descompromisso é uma condição. Pode-se perceber nesta complexa estrutura o estabelecimento de um “círculo vicioso”: formação da audição sem parâmetro  aceitação da difusão musical padronizada  reforço à audição sem parâmetro  ...
Musicalmente falando, entendemos que, com a avançada tecnologia deste momento histórico, que possibilitaria ao menos ilusoriamente um rápido deslocamento cronológico e geográfico, saciando o desejo de liberdade enfaticamente expresso nos dias atuais, estar aprisionado a uma escuta musical restrita, em muitos aspectos, comporta uma polêmica consideração: vende-se uma escuta musical ditatorial por uma sensação de escuta musical democrática, mascarando aos leigos ouvidos o aprisionamento sensorial, perceptivo, intelectual e comportamental via repetição da mesma estrutura e da mesma essência.
O segundo modelo musical, quase uma exceção em nossa realidade, poderia ser classificado como mais abrangente e qualitativamente compromissado: bem pesquisado e elaborado para outros fins que não unicamente ou primordialmente o comercial, proporciona uma percepção musical ampla através de diferentes estilos e gêneros, estimula a profundidade da assimilação do objeto artístico através do uso da inteligência, da sensibilidade, da apreciação, da expressão e criatividade, e incita naturalmente à independência dos ditames que subjugam a capacidade do ouvinte, dentro do que isso seja possível. Tal procedimento preocupa-se com que o público possa ter contato com o vasto e diversificado material sonoro tanto musical como extra-musical existentes, inclusive com os mais distantes, exóticos ou extintos.
Torna-se importante evidenciar que, diferente do que normalmente é citado, “qualidade musical” não necessariamente está relacionada a este ou aquele tipo de música, e sim a todo um universo aparentemente paralelo, cuja inerência altera inimaginavelmente a escuta e a consciência musical do ouvinte – tanto quanto o arranjo, a interpretação e as condições ambientais, por exemplo, também muito pouco considerados em nossa realidade. Classificar qualitativamente gêneros e estilos musicais, caracterizaria uma postura extremamente polêmica - a qual envolve questões muito pessoais e complexas, sobre as quais não há interesse de aqui discorrer. Caso fossem restringidas ao público geral somente músicas “de qualidade”, selecionadas por um criterioso grupo de especialistas - prática esta que ocorre em alguns países - ainda assim acusaríamos este processo como não democrático e não educativo.

A prática de escuta adquirida pelo segundo processo acima, pode parecer, pela sua distinção, individualista, solitária ou no mínimo atípica a alguns, segundo insinua a mensagem normalmente passada pela mídia que atua conforme o primeiro modelo musical exposto. Embora chegue a verbalizar o contrário, procurando inclusive seduzir os que são atraídos pelo status do tratamento personificado vip, em verdade ela incita camufladamente à consideração de que o gosto ou preferência pelo que é considerado simplesmente como diferente, conota uma inadaptação temporal e social, cultural enfim. Tal concepção serve de elemento atemorizante a um significativo número de pessoas, de modo a estimular o ouvinte a desejar ouvir o que e como ouve a maioria, a fim de tranqüilizar-se por auto definir-se, inconscientemente, como normal, sociável, adaptado, moderno, valorizado e aceito. Deste modo a mídia obtêm o aval que necessita para continuar, mesmo que disfarçadamente, oferecendo os seus “velhos bordões musicais”, inclusive às classes sociais mais privilegiadas . A respeito disto, observa-se um fenômeno já inserido em nossa realidade:
As rádios se classificam no Brasil como “A”, “B”, “C”, “D”, de acordo com as diferentes camadas da população para as quais dedicam suas programações, pois sabem que, em princípio, elas não estão igualmente preparadas e/ou interessadas a apreciar do mesmo modo seus diferentes conteúdos e formas. Compreensível - mas não necessariamente aceitável, por estar em conformidade com o internacionalmente conhecido desequilíbrio sócio-econômico que marca nossa população – a aludida distinção é, de fato, mais fictícia do que real. Mesmo objetivando adequarem-se ao público alvo, as emissoras de rádio continuam coerentes, acima de tudo, com o sistema capitalista do qual fazem parte: como indústrias culturais que são, elas devem atender ao lema lucro-benefício, barateando o custo de seus produtos para obter deles o maior lucro possível. Logo, o produto cultural destinado ao público “A” não será necessariamente de nível “A” no que se refere ao padrão de qualidade, num sentido amplo do termo, por trair aquele princípio elementar de mercado. No conceito de qualidade estaria implícito maior investimento financeiro, logo a busca pelo maior lucro possível tornar-se-ia ameaçada. Sendo assim, resta criar um “simulacro” de qualidade, de modo a vender a idéia de qualidade destituída de valores intrínsecos que a tornariam mais onerosa ao fabricante.
Parece acertado supor, por meio das colocações anteriores, que nas condições vividas atualmente no mundo mercantilista capitalista, dar preferência à arte de modo geral - e nesta a musical - que se distinguem como a chamada cultura de massa, parece ser muito coerente. Esta, diferente do que muitos podem conceber para um áureo universo artístico, caracteriza-se como um produto industrializado como qualquer outro, conforme já apontamos, em que as músicas estão sendo inventadas por gravadoras, conforme afirmou o maestro Júlio Medaglia , ou criadas nos laboratórios de Marketing das companhias de disco, conforme escreveu o jornalista Mauro Dias .

Nos últimos anos, temos observado, mesmo os ouvintes aparentemente despreparados, que estão familiarizados quase que somente com essa limitada realidade - muitos sem terem tido a oportunidade de se aproximar de músicas que não seguem a conhecida fórmula do sucesso - começam a se conscientizar da repetição que caracteriza o chamado “novo” dentro do repertório que ouvem, e alguns se queixam . Este fenômeno parece indicar que aquela prática adotada pelos meios sonoros de comunicação torna-se abusiva, corre o risco de ineficiência em curto, médio ou longo prazo, e requererá mudanças de mentalidade e de atuação. Parece evidente que o sucesso dos sistemas criados para difusão musical via internet simbolizam ao menos a possibilidade de uma carta de alforria àquela escravidão (mas somente àqueles que a ela têm acesso).

É impossível prever o que ocorrerá às indústrias culturais ao sustentarem a prática de somente provocar mudanças superficiais em seus produtos com o objetivo de manterem o equilíbrio de investimentos e retornos financeiros que a elas interessa. Resolverão por si o problema da saturação que começou enfim a provocar em parte dos consumidores que buscam novas experiências mesmo que inconscientemente? Serão levadas oficialmente a isto por pressão do poder público? E ainda mais complexo: tem como haver uma alteração substancial dessa dinâmica dado o extenso período em atuação que possibilita o esquecimento ou enfraquecimento de outros referenciais? A atuação direta de pessoas ou órgãos especializados e autorizados em educação e cultura - que funcionariam como orientadores, consultores, ou até controladores do exercício de propagação do material musical veiculado pela mídias no Brasil - considera-se ser insuficiente, uma vez que as empresas de comunicação parecem livres para criar, elaborar e distribuir o que a elas convém, e não à nação, segundo seus próprios critérios. Com a conivência do Estado, ou melhor, com a permissão oficial concedida pelo Executivo à iniciativa privada em toda a história dos meios de comunicação de massa no país, tem cabido somente a esta a responsabilidade pelo conteúdo da programação que transmite e suas conseqüências, sem o devido estabelecimento explícito e transparente de seu comprometimento junto ao público.

Claro está que o processo que procuramos resumir não se restringe unicamente às questões artístico-culturais, mas ao próprio perfil de tudo que resulta do universo mercadológico capitalista e é por este endossado. No entanto, todas as questões mais estritamente psico-sociais, estabelecem-se para nós como muito passíveis de zelo: quando a expressão humana é concretizada na manifestação artístico-cultural, esta passa a funcionar automaticamente como um espelho estilizado, onde a pessoa em suas diferentes manifestações mira-se e cria, mesmo que inconsciente, uma auto-imagem.
Logo, o envolvimento da sociedade em todo este processo, a nosso ver, pode ser o desdobro de um objetivo específico, que seria o de incentivar um interesse mais sistematizado pelo público ouvinte brasileiro, ao reconhecer o papel deste no estabelecimento do padrão de qualidade e diversidade, enquanto agente controlador, daquilo que no Brasil é produzido musicalmente e divulgado pela mídia.
Neste sentido, é importante salientar que, sintomaticamente, um interesse mais sistematizado pelo público ouvinte vem paulatinamente ocorrendo e se ampliando em diferentes focos no Brasil por parte dos mais interessados nesta questão, sobretudo por parte de músicos, educadores, psicólogos e especialistas em comunicação. Cada vez em maior número, melhor organizadas e ministradas, vêm ocorrendo ações dirigidas à formação ou informação musical do público de modo geral:
- criação de escolas livres de música com objetivos distintos dos tradicionais conservatórios, ou seja, não direcionados somente à formação de músicos;
- programas musicais especiais em algumas emissoras de rádio e televisão;
- concertos com repertórios especiais ou acompanhados de explicações verbais sobre as obras e suas instrumentações;
- cursos, palestras, oficinas e workshops;
- bibliografia específica;
- pesquisas acadêmicas e não acadêmicas;
- encontros, debates, mesas redondas, simpósios, congressos, nos quais se discute aquele tema.

Estamos absolutamente convencidos, entretanto, de que uma ação, talvez ainda mais ampla e cuidadosa, deva ser planejada para que alcance e se imponha eficientemente perante a moderna, gigantesca e complexa estrutura dos meios de comunicação de massa, segundo todas as alegações acima.
A direção e o rumo da educação como um todo em nosso país, e da educação musical especificamente, parece depender enfim de uma mudança significativa de concepção da questão ao menos por parte dos interessados, entendendo-a como macro, complexa e fortemente inserida em um sistema internacional, apesar de suas inúmeras ramificações e nuances regionalizados.
Ao considerar a realidade como se apresenta, espera-se que o poder público e a sociedade civil possam enfim organizar-se e mobilizar-se para a alternância do quadro apresentado. Neste sentido, a experiência tem apontado que talvez fosse melhor inverter a ordem desse envolvimento para possibilitar ações mais bem sucedidas e duráveis: primeiro a conscientização da sociedade civil, e depois o estímulo à mobilização do poder público. Justificando de um outro modo: para haver a transformação de conjunturas tão cristalizadas, atitudes ousadas daqueles que nela simplesmente acreditam e valorizam - tal como Villa-Lobos - podem caracterizar-se como uma força propulsora, que tende a aglutinar parceiros e estimular (ou pressionar) à ação necessária os que foram eleitos pela maioria na expectativa de cumprirem suas funções a contento.


BIBLIOGRAFIA CITADA


LIVROS:

1- COLI, Jorge. O que é arte. São Paulo: Brasiliense, 1995. 131 p.

2- CORRÊA, Tupã Gomes. Rock, nos passos da moda: mídia, consumo X mercado
cultural. Campinas, SP: Papirus, 1989. 149 p.

3- MEDAGLIA, Júlio. Música Impopular. São Paulo: Global, 1988. 327 p.

4- MORAES, Frederico. Artes plásticas – a crise da hora atual. São Paulo: Paz e Terra, 1975

5- ORTRIWANO, Gisela S. A informação no rádio: os grupos de poder e a determinação dos conteúdos. São Paulo: Summus, 1985. 117 p.

6- PAZ, Ermelinda Azevedo. Quinhentas canções brasileiras. Rio de Janeiro: Luís Bogo,
1989. 179 p.


REVISTAS:

1- MEDAGLIA, Júlio. “Estoque regulador cultural”. Concerto, ano VII, nr. 70,
p. 10, janeiro/fevereiro 2002

2- SOUZA, Jusamara. “A concepção de Villa-Lobos sobre a educação musical”.
Brasiliana, nr. 3, pp. 18-25, setembro 1999


JORNAIS:

1- DIAS, Mauro. “Um massacre cultural sem precedentes”. O estado de S.Paulo, 7.06.99