Onde está a crise da música brasileira? Maria Luiza Kfouri
Onde está a crise?
Em entrevista à Folha Ilustrada em 25 de março último, Alexandre Schiavo, presidente brasileiro da fusão entre Sony Music e BMG, declarou que:
“Há uma crise na produção musical, mas isso não é culpa da gravadora. É uma crise de criatividade, e não há um gênero musical que seja dominante, como havia na época do axé ou do forró.”
Esse tipo de declaração não é novidade, pois de quando em quando, lemos na grande imprensa artigos mal humorados tratando da “crise” da música brasileira em que pese o prestígio da dita cuja em todo o mundo.
Tanto é, que o repórter que ouviu esta bobagem passou à pergunta seguinte sem se dar ao trabalho de nenhuma contra-argumentação.
No ano passado, gravadoras independentes, como a Biscoito Fino, a Acari, a Revivendo, a Fina Flor, a Bizarre, a Delira Música, a Dubas, a YB, a Maritaca, a CPC-Umes, a Trama, a Tratore, a Lua Discos, a Visom, a Velas, a Palavra Cantada e o Núcleo Contemporâneo – só para citar algumas – foram responsáveis pelo lançamento de mais de 100 títulos de excelente qualidade de música instrumental e vocal. Além delas, tivemos outros tantos lançamentos produzidos independentemente, pelo próprio músico.
Aliás, é preciso que se diga, no caso da música instrumental, que há muito tempo os instrumentistas vêm segurando boa parte da qualidade de nossa produção, a despeito da quase nenhuma visibilidade na imprensa, no rádio e na televisão. Grandes músicos, como o clarinetista e saxofonista Paulo Moura, para citar um mais famoso, e o violonista e incansável pesquisador e restaurador de partituras Maurício Carrilho, passando por outros tantos que não vou enumerar porque são incontáveis, vêm gravando e lançando seus trabalhos com uma constância que beira a teimosia, dadas as dificuldades que enfrentam para distribuir e divulgar o que gravam. Instrumentistas que fariam a alegria de qualquer grande casa de espetáculo do mundo. Pequenas gravadoras que continuam em pé às custas do enorme sacrifício de seus mantenedores, e lançam discos sem parar. Discos de incrível qualidade tanto artística quanto técnica.
No entanto, nos jornais, críticos de música anunciam a “falência da música brasileira”, a “falta de criatividade do músico brasileiro” e, enfim, a “crise em que produção musical brasileira está mergulhada”.
E é aí que eu pergunto onde está a crise? Na criação ou na grande indústria fonográfica que, ávida de lucros, prefere lançar as kelly key da vida – com produção barata e rendimento fácil – a lançar um disco de Edu Lobo, que requer bons músicos, boa produção e lançamento cuidadoso? Onde está a crise? Na criatividade do músico ou na conivência da imprensa que, fazendo o jogo da grande indústria, dá destaque imerecido a lançamentos pífios e pequenas notas (quando as dá) ao que, de fato, merece destaque?
Em 2003, a APCA – Associação Paulista de Críticos de Arte – preferiu dar o prêmio de melhor disco de 2002 ao vendidíssimo “Os Tribalistas” a premiar “Princípios do Choro”, caixa com 15 CDs – lançada pelas gravadoras Acari e Biscoito Fino - que faz um inventário precioso dos primórdios de um dos gêneros mais ricos da música mundial, a partir da recuperação de partituras e com a participação de grandes instrumentistas da atualidade.
Crise mesmo é ler uma patacoada deste tamanho vinda de um dito “executivo” da grande indústria do disco, que prefere fechar os ouvidos à imensa qualidade da produção musical deste país e abrir os olhos para um bumbum bonitinho que enfeite uma capa de disco, e ainda diz “que não é culpa da gravadora”.
É preciso que se diga onde está a crise?
Maria Luiza Kfouri
www.discosdobrasil.com.br
Em entrevista à Folha Ilustrada em 25 de março último, Alexandre Schiavo, presidente brasileiro da fusão entre Sony Music e BMG, declarou que:
“Há uma crise na produção musical, mas isso não é culpa da gravadora. É uma crise de criatividade, e não há um gênero musical que seja dominante, como havia na época do axé ou do forró.”
Esse tipo de declaração não é novidade, pois de quando em quando, lemos na grande imprensa artigos mal humorados tratando da “crise” da música brasileira em que pese o prestígio da dita cuja em todo o mundo.
Tanto é, que o repórter que ouviu esta bobagem passou à pergunta seguinte sem se dar ao trabalho de nenhuma contra-argumentação.
No ano passado, gravadoras independentes, como a Biscoito Fino, a Acari, a Revivendo, a Fina Flor, a Bizarre, a Delira Música, a Dubas, a YB, a Maritaca, a CPC-Umes, a Trama, a Tratore, a Lua Discos, a Visom, a Velas, a Palavra Cantada e o Núcleo Contemporâneo – só para citar algumas – foram responsáveis pelo lançamento de mais de 100 títulos de excelente qualidade de música instrumental e vocal. Além delas, tivemos outros tantos lançamentos produzidos independentemente, pelo próprio músico.
Aliás, é preciso que se diga, no caso da música instrumental, que há muito tempo os instrumentistas vêm segurando boa parte da qualidade de nossa produção, a despeito da quase nenhuma visibilidade na imprensa, no rádio e na televisão. Grandes músicos, como o clarinetista e saxofonista Paulo Moura, para citar um mais famoso, e o violonista e incansável pesquisador e restaurador de partituras Maurício Carrilho, passando por outros tantos que não vou enumerar porque são incontáveis, vêm gravando e lançando seus trabalhos com uma constância que beira a teimosia, dadas as dificuldades que enfrentam para distribuir e divulgar o que gravam. Instrumentistas que fariam a alegria de qualquer grande casa de espetáculo do mundo. Pequenas gravadoras que continuam em pé às custas do enorme sacrifício de seus mantenedores, e lançam discos sem parar. Discos de incrível qualidade tanto artística quanto técnica.
No entanto, nos jornais, críticos de música anunciam a “falência da música brasileira”, a “falta de criatividade do músico brasileiro” e, enfim, a “crise em que produção musical brasileira está mergulhada”.
E é aí que eu pergunto onde está a crise? Na criação ou na grande indústria fonográfica que, ávida de lucros, prefere lançar as kelly key da vida – com produção barata e rendimento fácil – a lançar um disco de Edu Lobo, que requer bons músicos, boa produção e lançamento cuidadoso? Onde está a crise? Na criatividade do músico ou na conivência da imprensa que, fazendo o jogo da grande indústria, dá destaque imerecido a lançamentos pífios e pequenas notas (quando as dá) ao que, de fato, merece destaque?
Em 2003, a APCA – Associação Paulista de Críticos de Arte – preferiu dar o prêmio de melhor disco de 2002 ao vendidíssimo “Os Tribalistas” a premiar “Princípios do Choro”, caixa com 15 CDs – lançada pelas gravadoras Acari e Biscoito Fino - que faz um inventário precioso dos primórdios de um dos gêneros mais ricos da música mundial, a partir da recuperação de partituras e com a participação de grandes instrumentistas da atualidade.
Crise mesmo é ler uma patacoada deste tamanho vinda de um dito “executivo” da grande indústria do disco, que prefere fechar os ouvidos à imensa qualidade da produção musical deste país e abrir os olhos para um bumbum bonitinho que enfeite uma capa de disco, e ainda diz “que não é culpa da gravadora”.
É preciso que se diga onde está a crise?
Maria Luiza Kfouri
www.discosdobrasil.com.br

