Wednesday, April 26, 2006

CARTA ABERTA A NOCA DA PORTELA

CARTA ABERTA A NOCA DA PORTELAPrezado NocaPermito-me o tratamento informal porque no momento em que lhe escrevo já não sou seu subordinado, mas apenas um colega músico, embora militando em outra vertente da criação musical.Confesso que fiquei perplexo ao tomar conhecimento de minha demissão pelo jornal. Penso que o meu passado de trabalho em todas as instituições pelas quais passei mereceria um tratamento menos indigno como de resto qualquer subordinado.Não discuto o seu direito de substituir qualquer ocupante de cargos de confiança de sua Secretaria, tanto que coloquei o meu à sua disposição tão logo soube de sua nomeação. Mas não aceito a forma grosseira com que isso foi feito. E nem posso levar em consideração as desculpas que me apresentou por telefone (depois de reações e críticas que recebeu em sua própria Secretaria) de que a notícia vazou para a imprensa antes da hora, porque você sabe tão bem quanto eu QUEM ligou para a coluna do jornal passando a informação.Perplexo também fiquei porque essa medida desmentia a sua própria afirmação, na cerimônia de sua posse, de que todos ficassem tranqüilos porque não haveria mudanças nas equipes competentemente formadas por seu antecessor e que, segundo suas palavras, estavam tendo um excelente desempenho, pois, segundo afirmou, como em campeonato de futebol, em equipe que está vencendo não se mexe. Você disse uma coisa e fez outra o que não significa que palavra de sambista não mereça crédito, mesmo porque eu jamais duvidaria da palavra de amigos portelenses como Monarco (com quem tive o prazer de conviver e até mesmo oportunidade de escrever na pauta musical, a seu pedido, um e outro samba de sua autoria, quando éramos colegas no JB), ou o grande Paulinho da Viola, exemplo de talento e de caráter, ou ainda do salgueirense Haroldo Costa, doutor em samba e carnaval. Tampouco duvidaria da palavra de meu pai, chorão e sambista em sua juventude, e nem dos meus dois filhos profissionais do samba e da MPB, e que também são exemplos de retidão e caráter. Considero, portanto, o seu ato como de responsabilidade estritamente pessoal, não obstante as justificativas que me apresentou por telefone, de que obedecia a injunções de natureza política certamente não da maiúscula Política Cultural, mas da minúscula política do apadrinhamento, do interesse pessoal e do corporativismo. Lamento que uma Secretaria como a de Cultura, para mim a mais importante não por seu minguado orçamento, mas por sua abrangência e significação no contexto da Sociedade, possa estar à mercê desse tipo de política.Finalmente, quero confessar que me entristece ser atropelado em meio a um trabalho amplamente reconhecido de modernização do MIS, e que vem sendo realizado graças não aos recursos orçamentários, diminuídos em quase 50% nos últimos dois anos, mas ao aporte financeiro de instituições de apoio à cultura como a Petrobras, que investiu mais de um milhão em projetos de recuperação da sede da Lapa (com o apoio do INEPAC) e de digitalização de partituras e acetatos históricos da Rádio Nacional recursos captados diretamente ou através de parcerias e a Fundação Vitae de São Paulo, que possibilitou o restauro e a digitalização de mais de uma centena de negativos panorâmicos da Coleção Augusto Malta. Aliás, no mesmo dia em que saía a notícia de minha demissão na coluna de Ancelmo Góis, o Diário Oficial do Estado publicava a liberação, pela Petrobras, de um recurso suplementar de R$80.000,00, por nós solicitado para completar a reforma também dos espaços internos da sede da Lapa.Com esses recursos, aplicados rigorosamente, cada centavo, na execução dos projetos a que se destinavam, foi possível adquirir dezenas de equipamentos, criar estações de digitalização de acervos, promover o tratamento e a transferência para suporte digital de 20 mil partituras e mais de uma centena de acetatos cujos originais corriam o risco de se perder pela ação deletéria do tempo e do manuseio direto. E em parceria com o Instituto Jacob do Bandolim, centenas de gravações históricas desse grande músico foram restauradas e digitalizadas.Para dar continuidade a esse trabalho, uma equipe de funcionários recebeu orientação técnica de profissionais da área, de modo a permitir que, a médio prazo, todo o acervo do mais importante centro de memória audiovisual do país possa ser digitalizado e assim preservado definitivamente.Todo esse trabalho tem sido realizado com carinho, dedicação e persistência pela pequena, mas valiosa, equipe de museólogas, técnicos e estagiários, além de técnicos terceirizados, especialmente contratados com recursos dos próprios projetos. O espírito de equipe prevaleceu durante toda a gestão da administração que agora se despede, e que sai com a consciência tranqüila pela certeza de haver dado o melhor de si num trabalho voltado exclusivamente para os interesses da instituição.Ao deixar a FMIS, acredito ter cumprido o compromisso que assumi ao ser convidado pela então Secretária Helena Severo, de priorizar o tratamento e a preservação do acervo, que representa a própria razão de ser da instituição.Fundamental, para o cumprimento dessa tarefa apenas iniciada, foram a competência e a dedicação das museólogas responsáveis pelas diversas coleções e da Gerência de Acervos, a seriedade, firmeza e determinação da Diretoria Administrativa e Financeira e sua equipe de apoio, e a total dedicação, inteligência e capacidade de planejamento e execução da Vice-Presidência.É toda essa estrutura, em pleno funcionamento não obstante as muitas limitações e dificuldades, que agora se desmonta e oxalá isso não comprometa o projeto de modernização de que a instituição necessita para sua própria sobrevivência. No sonho, ficam também outros projetos que não foram realizados por falta de recursos e condições, como a restauração da sede histórica da Praça XV, a recuperação do Cine MIS e a digitalização de todo o acervo da extraordinária coleção de Depoimentos para a Posteridade (projeto recentemente encaminhado à CAIXA para apoio financeiro e em fase de análise), a formação de uma coleção de Instrumentos Musicais Brasileiros, para reunir, numa mostra permanente de caráter didático e musicológico, todos os instrumentos utilizados em manifestações populares de todo o país, a realização de exposições temporárias e permanentes uma vez concluída a reforma da sede histórica, a implantação de um Plano de Cargos e Salários, a organização de uma Associação de Amigos e a retomada dos depoimentos e das edições gráficas e fonográficas para divulgação do acervo. Projetos que, esperamos, possam ser realizados pelas próximas administrações.Por último, assinalo, por curioso, o fato de que um músico, que talvez exerça pela primeira vez uma função administrativa, tenha feito de seu primeiro ato a destituição de outro músico, sem se preocupar em conhecer o seu trabalho e sem aviso prévio. Como disse um dos meus filhos, o Noca desafinou... na ética.Formulo, apesar de tudo, os melhores e mais sinceros votos para que sua gestão não se paute por ações como essa, mas que atenda efetivamente aos reais interesses da Cultura em todas as suas vertentes.Rio de Janeiro, 26 de abril de 2006Edino Krieger

A DEMISSÃO DE EDINO KRIEGER

A DEMISSÃO DE EDINO KRIEGER

No meio de tantos escândalos políticos e governamentais, as coisas da cultura só raras vezes são abordadas. Desta vez, intelectuais, jornalistas e a própria Internet estão ferventes. Listas e mais listas de adesão. Sem explicar motivos (não os há) o novo Secretário de Cultura do Governo do Estado, o compositor Noca da Portela, demitiu o compositor Edino Krieger de Presidente do Museu da Imagem e do Som. Associo-me ao espanto geral.
Edino Krieger não é apenas um compositor de música brasileira chamada erudita. É uma glória internacional de nossa música. Em País no qual os compositores contemporâneos de música erudita brasileira quase não têm canais de divulgação. Edino é festejado como um nome altissonante, respeitado e soberbo. São essas pessoas que honram o Brasil.
O Noca da Portela também é um ótimo compositor de música popular da melhor qualidade na linha do chamado samba de raiz, um gênero notável e igualmente marginalizado injustamente por rádios e televisões. Fico a pensar: será uma inimaginável disputa de música popular com música erudita? Não pode ser. Ademais não existe música popular e música erudita: existe boa música ou má.
Edino ademais, é um grande caráter, já deu, além de compositor, várias demonstrações de competência, honradez e trabalho sério em outros cargos públicos que presidiu, roubando inestimável tempo de sua atividade criativa para ajudar o Brasil e sua cultura.
Pouca gente sabe, mas só a recuperação de partituras esquecidas ou em fase de estrago de antigas músicas brasileiras, trabalho maravilhoso, só isso seria suficiente para consagrá-lo como servidor público. E é uma gota de água em sua atividade. Mas neste país quem é que sabe dessas coisas de cultura: quase tudo é mercado financeiro, consumismo, Big Brother Brasil, intriga política, corrupção, silicones, assaltos. Por isso, até a palavra irado virou o contrário do que significa...
Que fase dolorosa e medíocre esta que o Brasil está a viver ! Tenho a certeza de que, fosse o Edino Krieger o Secretário de Cultura e ao empossar-se encontrasse um compositor popular da qualidade e biografia do Noca, jamais o demitiria sem mais nem menos e sem sequer comunicar-lhe (como aconteceu agora) do Museu da Imagem e do Som, uma instituição indispensável à memória musical do Brasil. E isso que o Edino tem nível para ser melhor do que muito Ministro da Cultura dentre tantos que passam ou já passaram por essa pasta do governo federal.
Sugestão suave mas firme de um homem vivido. Volte atrás, Noca. Não entre nesse caô. Nem sei se o Edino aceitaria. Afinal de contas, não era o cargo de Presidente do Museu da Imagem e do Som que o prestigiava. Desculpe, mas era o ele que o honrava.
Artur da Távola"

Monday, April 17, 2006

Robbie Williams dá novo passo rumo à "revolução digital"

Robbie Williams dá novo passo rumo à "revolução digital" UOL - 11/4/2006- Por Reuters - Erik Kirschbaum

(Berlin) - Um novo telefone celular que inclui um link para o site de Robbie Williams é um passo rumo a uma "revolução digital" da qual a indústria da música deve tirar vantagem, e não rejeitar, disse o agente do cantor. Williams, um dos artistas de maior sucesso na Europa, já enfureceu executivos da indústria musical no passado ao elogiar a pirataria na Internet, chegando a chamá-la de "uma grande idéia". Em uma entrevista antes do início da turnê mundial do cantor britânico, que deve começar na segunda-feira, seu agente Tim Clark disse que a indústria deveria classificar quem procura a música digital como consumidor, e não como criminoso. Clark disse que Williams, que em outubro fez um show em Berlim que foi exibido para 100 mil celulares, queria levar a "revolução digital" adiante. Ele disse que o novo celular, feito com T-Mobile e a Sony Ericsson, era apenas mais um passo rumo a esse objetivo. "As vendas em formato digital são uma realidade - está claro que as vendas físicas (da música) estão caindo em índices de porcentagem de dois dígitos", disse Clark, um dos dois agentes de Williams, quando questionado sobre o motivo de o cantor estar se unindo a empresas fora da indústria musical. "Vendas digitais já significam um grande negócio em locais como a Coréia e o Japão. Queremos nos envolver porque gente como a T-Mobile e a Sony terão uma enorme influência sobre como a música será distribuída. Temos que nos envolver para termos alguma influência", disse. O celular, que será lançado na segunda-feira, contém músicas de Williams e videoclipes, além de links para seu site.

Seu iPod fica órfão de música no Brasil

Seu iPod fica órfão de música no Brasil O Estado de S. Paulo - 11/4/2006- Por Link - Guilherme Werneck
Imagine como seria a sua discoteca se, no passado, cada álbum que você comprasse precisasse de um toca-discos diferente. Se você comprasse um CD de uma determinada gravadora, ele só seria reproduzido em aparelhos compatíveis com ele. Provavelmente você não teria discos, certo? Pois é isso que, na prática, acontece com a música digital. O vilão dessa história é o chamado Digital Rights Management (DRM), o sistema de criptografia que controla a licença digital. Isso significa que, mais do que um arquivo de música, como um MP3 normal, a música que você compra com DRM carrega junto as informações do que você pode ou não fazer com aquela música. As gravadoras, principalmente as multinacionais , não colocam na web nenhuma música à venda sem controlar os diretos digitais. Para piorar, cada loja virtual adota um tipo de DRM diferente. Na prática isso significa que, se você comprar uma música no iMusica, só poderá ouvi-la no computador usando o Windows Media Player e só poderá passar essa música para tocadores digitais que leiam arquivos WMA, da Microsoft. Mas esse não é um problema exclusivo do Brasil - afeta os consumidores em escala mundial. As principais lojas de música digital de fora do País, como o iTunes e o Napster, adotam modelos diferentes de DRM. Um dos principais atrativos de se comprar música digital é rechear o seu tocador preferido, sem ter muito trabalho. E aí é que as pessoas sentem o quanto essa lógica de formatos distintos de proteção pode ser bastante perversa. Se você tem um iPod, o tocador mais vendido no mundo, e quer comprar música digital no iMusica, esqueça. O iPod não reproduz o formato WMA, da concorrente Microsoft. Isso porque a Apple tem o seu próprio formato para arquivos protegidos, o AAC, que, por sua vez, não é reconhecido pelos tocadores concorrentes. Nos Estados Unidos, as gravadoras colocam suas músicas à venda em diferentes lojas em formatos distintos. Assim, se você tem um iPod, só vai comprar na loja da Apple. Se tem um da Creative, terá de comprar no Napster, por exemplo. Mas e se você quiser, no futuro, trocar de tocador? Aí toda a música que você comprou - e não pagou barato por ela - terá de ser comprada novamente só por causa da mudança de tecnologia. No caso do Brasil, em que só temos o iMusica, não é possível comprar localmente músicas que toquem no iPod. Para o diretor da Associação Brasileira da Música Independente e professor da ESPN/Rio Jerome Vonk, um dos motivos dessa confusão de formatos acarretada pelo uso de DRM vem da própria tradição da indústria fonográfica. "A grande verdade é que a indústria nunca inventou nada, sempre foi muito reativa. Todas as invenções, desde o gramofone, vieram de fora da indústria.". <

Texto Júlio Medaglia editado na Revista Concerto

Abaixo encontra-se o último texto do Júlio Medaglia editado na Revista Concerto.
Deputado, cadê o meu?Em meados dos anos 70 eu assumi a direção da Rádio Roquette Pinto do Rio de Janeiro, emissora cultural-educativa do governo daquele Estado. Tomando conhecimento do universo administrativo no qual iria atuar, me dei conta que a emissora não pagava direitos autorais pelas músicas transmitidas. Com meus poderes gerenciais, através de ofícios, determinei que esses direitos fossem pagos imediatamente. Mas a questão gerou polêmicas e os processos não caminhavam. Fui, então, ao governador Faria Lima, um político cuja dignidade e grandeza tanto quanto a de seu irmão, nosso inesquecível prefeito nos deixa saudosas lembranças nestes tempos de Severino Cavalcanti. Argumentando ele que aquele órgão de comunicação havia sido criado pelo grande pioneiro da radiofonia brasileira para fins educativos e de divulgação de nossa cultura, que não era uma rádio comercial, que não gerava lucros a ninguém, que era financiada pelos impostos do contribuinte etc. etc., perguntou se mesmo assim eu achava que esses direitos deveriam ser pagos. "Governador", disse eu, "hoje de manhã queimou uma válvula do transmissor e o técnico, ao adquirir uma nova, disse ao importador que não iria pagar pois ela seria utilizada por uma rádio educativa. O sr. acha que o comerciante nos forneceu a válvula?" É evidente que a polêmica parou por aí e, a partir da relação de músicas que éramos obrigados a enviar à censura da época, pela primeira vez uma emissora pública passou a pagar direitos autorais.
É extremamente curioso notar como a "aura" que envolve a criação artística, assim como seu caráter aparentemente abstrato, levam pessoas a acreditar que o produto cultural se diferencia, em seu potencial patrimonial, do de um bem de consumo comum. Isso gera inúmeras confusões, mas muitas vezes também uma legião de aproveitadores, como vimos na minha crônica anterior desta CONCERTO, quando abordamos o crime da pirataria. Hoje vamos lembrar mais um fato, tão questionável como o anterior, no qual os artistas autores e intérpretes são igualmente os mais prejudicados.

[...] Leia o artigo completo na edição de maio da Revista CONCERTO.
(Leia mais notícias do mundo musical na edição de maio da revista CONCERTO.)
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Sunday, April 09, 2006

Silvia de Lucca

Silvia de Lucca é mestre em Artes pela ECA-Usp, graduou-se em piano e Psicologia em 1982 e 1983, respectivamente. Residiu em Zurique e Genebra (1989-1993), onde se especializou em Composição. Atualmente dedica-se também às atividades de docente em diversas disciplinas musicais. Empenha-se na valorização do humano, das diferentes culturas e do indivíduo por meio de realização de pesquisas, palestras, criação de textos, elaboração de projetos sócio-educativos-culturais e, sobretudo, ao projeto ARTE DOS SONS, por ela idealizado e ministrado desde 1992 e que é destinado ao público leigo. Entre seus maiores objetivos está a conscientização do papel que os meios de comunicação de massa exercem na concepção musical brasileira.1. Estamos no mesmo barco de música, mas você na horrivelmente chamada "música erudita", e eu, na não menos horrível "música popular". O que você pensa sobre estes "rótulos"?As classificações podem ter uma função didática, de esclarecimento, para que se reconheçam as especialidades de cada área ou setor. Contudo, a mera classificação - no caso, músicas Erudita e Popular – sem que se tenha familiaridade suficiente com ambas para compará-las com mais profundidade em busca de mais conhecimento, acaba por provocar em grande parte do público uma distinção equivocada. Isto, não raramente leva a preconceitos muito cruéis. E pior, essa falta de informação generalizada acaba sendo usada, inclusive, pelo sistema político vigente, propositalmente ou por ignorância, para fazer valer o que se deseja como "verdade" para a sociedade. Houve épocas e lugares em que "Música Popular" era interpretada como ausente de nobre valor, hoje, no Brasil, por exemplo, o termo "Música Erudita" é tomado como sinônimo de antidemocrática. São termos muito ambíguos, que facilitam essas e outras falsas relações. Poderíamos acrescentar ainda o termo Música Folclórica, para fazer referência às três principais classificações da música ocidental. Entretanto, é bom lembrar que são incontáveis os gêneros fronteiriços, que não se encaixam em uma ou em outra classificação. Assim sendo, podemos questionar se esse modo de conceituar a música ajuda ou atrapalha.2. Você morou alguns anos na Europa onde se especializou em composição. Como foi esta experiência e em que sentido prático esta vivência acrescentou conteúdo ao seu conhecimento como musicista?Hoje, refletindo sobre isso, posso afirmar que fui atrás de nossa identidade brasileira e conseqüentemente atrás de minha brasilidade pessoal. Sobre a nossa cultura, ou sobre aS nossaS músicaS brasileiraS, ocorria perguntar-me qual seria entre elas o elo comum. Durante aquele período, ao freqüentar diversos eventos musicais, sentia que a música brasileira caracterizava-se de um modo peculiar mas, qual seria ele? Nada percebia diretamente relacionado à técnica de compositora que fosse significativamente distinto em nosso universo. É sabido, por exemplo, que a música brasileira contém algumas células rítmicas características, mas percebia não estar aí a nossa identidade musical, o que seria de grande simplicidade diante do tudo que ela representa. Uma tarde, conversando com um compositor suíço sobre as diferentes características dos diferentes povos, creio ter começado a esboçar uma resposta para aquela antiga busca ao citarmos a palavra ENERGIA. Anos depois, já de volta ao Brasil, ao ler o livro de Leopold Stokowski, "Música para todos nosotros" (1954), certifiquei-me tranqüila que a palavra "energia" não era descabida para qualificar nossa música, não importando qual seja sua especialidade. O mitológico regente contribuiu para que eu resolvesse quase que uma charada: a caracterização de nossa música está no CONTEÚDO, e esta consciência me fortifica no sentido de que, agora, eu entendo a função de minha música no mundo. 3. O que um estudo de composição abrange, especificamente? Trata do estudo das grandes obras de ótimos compositores ou, simplesmente, aprende-se a fazer música?Não é possível aprender a fazer música ou, melhor dizendo, não é possível aprender a ter idéias sonoras ou criar sons que não existem. Podemos sim aprender como melhor materializar tecnicamente a nossa fantasia, seja para redigi-la, quando necessário; seja para interpretá-la em um instrumento ou voz, de modo a ser fiel ao que se desejou expressar quando ainda no mundo da imaginação. Costumo dizer aos alunos que, ao desejarmos escrever uma carta, sabemos de início o que queremos transmitir, ao menos superficialmente, tanto os assuntos em si como o modo de fazê-lo. Ou seja, ser mais ou menos formal, mais ou menos objetivo, mais ou menos emocional, mais ou menos extenso, etc. Contudo, não basta ter essa consciência, nós precisamos saber escrever para redigir uma carta, ou ao menos saber ditá-la, e aí está o aprendizado. E quanto a conhecer as obras dos compositores consagrados, observamos justamente COMO, na prática, eles organizaram os sons para transmitir as suas mensagens. Interessa saber a estrutura de suas músicas assim como o seu funcionamento interno: que sons ele usou, em que ordem, como os combinou, etc. 4. Você também é formada em psicologia e, neste aspecto, como você avalia o material que é imposto pelas rádios, TVs e pela mídia impressa, incluindo revistas especializadas e de entretenimento, para o jovem consumidor da música?Entendo que não somente os jovens, mas o ouvinte (e leitor) em geral, está envolvido quase que somente com uma prática musical simplificada, repetitiva e padronizada. Limitada exclusivamente a alguns poucos estilos e gêneros. O que está em contradição com a multiplicidade da produção musical do planeta e mesmo brasileira. Além do que, essa restrita amostra do que é difundido, comumente não tem compromisso com a informação, amplitude e conteúdo, e menos ainda com o papel educativo desse material musical, que é visto sobremaneira pelos responsáveis como "produto de mercado". Trata-se de uma realidade que propicia a formação de hábito e gosto restrito, limitando o ouvinte à inexperiência sonora, à falta de parâmetros, à conseqüente desinformação musical generalizada. Esta situação, por sua vez, é absolutamente favorável à criação e desenvolvimento de mecanismos que procuram direcionar o ouvinte para o interesse que mais convém à indústria cultural e ao sistema capitalista: à compra compulsiva sem exigência. Eu poderia resumir dizendo que todo esse processo faz com que a personalidade de cada um, suas reais necessidades e interesses, e o direito à liberdade, sejam ignorados. 5. Você tem uma atividade política-social significativa, seja escrevendo matérias, ensinando música e etc. Na sua opinião, o que de mais urgente deve mudar na nossa sociedade em benefício da verdadeira e boa música?Proporcionar a todos, mas principalmente às crianças e adolescentes, o desenvolvimento de uma atividade musical com finalidade sócio-educativa-cultural, para que esse fazer possa despertar neles, e em quem com eles convive, a não-submissão aos problemas existentes, tanto pessoais como sociais. O envolvimento artístico gera novas referências e conseqüente interesse e confiança em buscar alternativas para a melhoria geral da qualidade de vida. Compreende-se aqui o papel fundamental que uma (boa) escola pode exercer na comunidade e no desenvolvimento geral do ser humano, que não se limita a (mal) ensinar a ler, escrever e fazer algumas operações matemáticas, para se saber o quanto é necessário trabalhar ou produzir a mais para pagar as próprias despesas.No entanto, esse trabalho educativo deve vir de várias frentes, e não somente da escola. E é preciso que passe necessariamente pela consciência e envolvimento do ouvinte - via difusão musical democrática -, a possibilidade infinita de conhecimento da música existente para o nosso proveito. Isso propiciará maior liberdade para a descoberta do que verdadeiramente atrai e interessa a cada um como música, inclusive como cultura, ideologicamente falando. 6. Fale um pouco dos seus projetos atuais e futuros.Depois de 40 dias de estadia em Buenos Aires, acabo de chegar. Na verdade, eu não suportava mais este cotidiano brasileiro-paulistano (2005 foi um ano de muitos conflitos e incertezas sobre a nossa rota), e resolvi "dar um tempo" da Terrinha. Ali pude trabalhar, estudar, caminhar e refletir muito. Dei uma entrevista na rádio Palermo sobre minhas pesquisas musicais e sobre o meu trabalho como compositora. Agora há o desafio de tentar mais uma vez adaptar-me ao que compreende um profissional autônomo em um país tão instável que desconhece as áreas de Educação, Cultura e Arte e todo o seu potencial. É preciso respirar fundo e seguir. Na prática dedico-me a terminar um trabalho que deverá tornar-se um livro em breve, destinado ao grande público que diz aquela frase "eu adoro música, mas não entendo nada"; também inicio a composição de uma série de obras para várias formações instrumentais; continuo a envolver-me com projetos que visam o acesso dos ouvintes à diversidade musical não disponibilizada pela grande mídia, e mantenho continuamente a minha atuação como docente.
Silvia de Lucca foi entrevistada por Felipe Ávila, profissional da música há 30 anos – guitarra e violão – e dedica-se a fazer e ensinar música com arte e qualidade.Postado no site http://www.granjaviana.com.br/