Manifesto de Hermano Vianna
Não tenho dúvida nenhuma: a novidade mais importante da cultura brasileirana última década foi o aparecimento da voz direta da periferia falando altoem todos os lugares do país. A periferia se cansou de esperar a oportunidadeque nunca chegava, e que viria de fora, do centro. A periferia não precisamais de intermediários (aqueles que sempre falavam em seu nome) paraestabelecer conexões com o resto do Brasil e com o resto do mundo. Antes, ospolíticos diziam: "vamos levar cultura para a favela." Agora é diferente: afavela responde: "Qualé, mané! O que não falta aqui é cultura! Olha só o queo mundo tem a aprender com a gente!"De um lado, há milhares de grupos culturais, surgidos na periferia, que emseus trabalhos juntam - de formas totalmente originais, e diferentes a cadacaso - produção artística e combate à desigualdade social. Os exemplos daCUFA (Central Única das Favelas), que produziu o documentário Falcão, e doAfro Reggae, que inventou projeto para dar aulas de cultura para policiais,são apenas os mais conhecidos. Na maioria das periferias onde chego, emtodas as cidades brasileiras, mesmo bem longe das capitais, encontro gruposmuitíssimo bem organizados, com propostas de ação cultural cada vez maissupreendentes. Para citar apenas mais alguns: a Fundação Casa Grande, deNova Olinda (região do Cariri, interior do Ceará), com suas equipes de rádioe TV formadas por crianças e adolescentes; a ONG Altofalante, do Alto Josédo Pinho, Recife, com suas lições de rádio e hip hop; o Instituto Oyá, deSalvador; a Companhia Balé de Rua, de Uberlândia... Há muito mais.Do outro lado, assistimos também ao nascimento de indústrias deentretenimento popular que já produzem os maiores sucessos musicais das ruasde todo o país sem mais depender de grandes gravadoras e grandes mídias paraconstruir sua rede de difusão nacional. É o caso do funk carioca, do forróeletrônico cearense (as banda têm DVD, sugerindo o surgimento de umaindústria audiovisual que não está baseada em recursos captados pela LeiRouanet), do tecnobrega paraense, do arrocha baiano, do lambadão cuiabano,da tchê music gaúcha. Todas essas músicas são produzidas na periferia para aperiferia, sem passar pelo centro. O centro apenas reclama da sua falta dequalidade musical, mas não pode mais usar o argumento de que o povo estásendo enganado por uma indústria cultural hegemônica, já que a tal indústriacultural hegemônica não tem a menor idéia do que está se passando - e pareceter perdido totalmente o contato com o que realmente faz sucesso - naperiferia.O tecnobrega paraense, por exemplo, desenvolveu um novo modelo de negóciosfonográficos que não precisa mais de gravadoras para se desenvolver. Asmúsicas saem direto dos computadores dos estúdios periféricos e vão pararnos camelôs e no circuito das festas de aparelhagem (que animam as noites defim de semana dos subúrbios de Belém, com suas toneladas de equipamento desom e luz hoje com controle totalmente digital). Laptops gravam tudo o queestiver tocando e os dançarinos podem comprar o CD - com tudo que acabaramdançar - na saída da festa. O aparecimento de usos locais para as novastecnologias é cada vez mais veloz.O pano de fundo para essa grande transformação das periferias não é apenasbrasileiro, mas reflete uma tendência global. A população urbana do mundohoje é maior que toda a população do planeta em 1960. O número de habitantesdas grandes cidades cresceu vertiginosamente num período em que a economiada maioria desses centros urbanos estava (e continua a estar) estagnada, semgerar novos empregos. Mesmo assim a migração para as cidades não parou, ehoje - pela primeira vez na história da humanidade - há mais gente vivendoem cidades do que no campo. Calcula-se que mais de um bilhão de pessoasvivam atualmente em favelas de todos os países (os "chawls" da Índia, os"iskwaters" das Filipinas, os "baladis" do Cairo, as "colonias populares" doMéxico, as "vilas" de Porto Alegre, os "aglomerados" de Belo Horizonte, eassim - quase infinitamente - por diante). Cerca de metade dessa populaçãofavelada tem menos de vinte anos. Quase todo mundo com trabalho informal.É muita gente, jovem. Governos e grande mídia não sabem o que fazer diantedessa situação. Muitas vezes não sabem nem se comunicar com essa "outra"população, que passa a ser invisível para as estatísticas oficiais, a nãoser para anunciar catástrofes. Essa gente toda vai fazer o que com toda suaenergia juvenil? Produzir a catástrofe anunciada? É só isso que lhe restafazer? Sumir do mapa para não causar mais problemas para os ricos? Em lugarde sumir, as periferias resistem - e falam cada vez mais alto, produzindomundos culturais paralelos (para o espanto daqueles que esperavam que dalisó surgisse mais miséria sem futuro), onde passa a viver a maioria dapopulação dos vários países, inclusive do Brasil.Esses mundos culturais periféricos não são homogêneos. O pessoal dos gruposculturais politizados (os que usam a cultura como arma contra as injustiçassociais) geralmente tem horror aos produtos bregas das novas indústrias doentretenimento periférico, considerado alienado, alienante e reprodutor dedesigualdades. As duas visões de mundo parecem incompatíveis,inconciliáveis, mas acabam produzindo, nas mesmas favelas - mas cada uma aseu modo, as novidades mais vitais (e nisso não há um julgamento estético -apesar de na minha opinião essas novidades muitas vezes serem maisinteressantes também esteticamente) da cultura brasileira como um todo.A própria idéia de inclusão cultural tem que ser repensada - ou descartada -diante dessa situação. Quando falamos de inclusão, partimos geralmente dasuposição que o centro (incluído) tem aquilo que falta à periferia (queprecisa ser incluída). É - repito - como se a periferia não tivesse cultura.É como se a periferia fosse um dia ter (ou como se a periferia almejasseter, ou seria melhor que tivesse) aquilo que o centro já tem (e por issopode ensinar a periferia como chegar até lá, para o bem da periferia). Écomo se as novidades culturais chegassem exclusivamente pelo centro, oufossem criadas no centro, e lentamente se espalhassem - à custa de muitoesforço civilizador - em direção à periferia. Nos exemplos acima vemos que aperiferia não esperou que o centro apresentasse as novidades. Sem que ocentro nem notasse, inventou novas culturas (muitas vezes usando tecnologiade ponta) que podem muito bem vir a indicar caminhos para o futuro docentro, cada vez em pânico diante do crescimento incontrolável da periferia.Quando viajo pelo Brasil, fora das zonas ricas e oficiais do eixo Rio-SãoPaulo (mas muitas vezes a apenas poucos passos dos seus centros de poder),fico sempre com a seguinte impressão: o minúsculo país cultural oficial,mesmo o retratado nos programas mais "populares" da mídia de massa, pareceuma pequena e claustrofóbica espaçonave, em rota de fuga através de buracosnegros, cada vez mais afastado do país real, da economia real, da cultura damaioria.Do lado de fora (na realidade em todo lugar), as periferias das cidadesinventam com velocidade impressionante novos circuitos culturais, e novassoluções econômicas - por mais precárias ou informais que sejam - para darsustentabilidade para essas invenções. Presto atenção especial nos circuitosfestivos, que sempre atraem multidões todos os fins de semana. Hoje, quasetodas essas festas - conseqüência também do descaso do poder público e dodesprezo dos bem-pensantes - proliferam na informalidade (quando não sãoliteralmente criminalizadas, como é o caso dos bailes funk do Rio).De certa forma, essa economia artística informal é produto de uma inclusãosocial conquistada na marra, quando a periferia deixa de se comportar comoperiferia, ou deixa de conhecer o "seu lugar", o lugar que o centro desejavaque para sempre ocupasse (o lugar daquele que sempre espera ser incluído,que sempre acha que é do centro que virá sua libertação). O Brasil vai terque se acostumar com essa "inclusão" forçada, de baixo para cima, feitaassim aos trancos e barrancos. Enquanto isso o centro parece não conseguirdeixar de lado esta nostalgia perversa de um país que "perdemos", quando ospobres e seus costumes "bregas" eram inaudíveis, a não ser num ou noutrolivro de Gilberto Freyre (e Jorge Amado, é claro), ou num ou noutro filme deGlauber Rocha, ou numa noitada no Zicartola. O centro quer que a retirantenordestina ainda ande com vestido de chita, e não com shortinho e top delycra, como manda o uniforme atual das periferias brasileiras...Como cantam os Racionais MCs, periferia é periferia, em qualquer lugar. Essaletra é mais verdadeira do que nunca. Cada vez mais, a periferia toma contade tudo. Não é mais o centro que inclui a periferia. A periferia agorainclui o centro. E o centro, excluído da festa, se transforma na periferiada periferia.O Central da Periferia quer colocar todas essas questões em discussão,trazendo essa realidade periférica - e suas festas, e seus problemas - paraa TV (mesmo tendo a humildade de saber que a cultura da periferia nãoprecisa mais da TV para sobreviver). O nome do programa já é uma provocação,já abre o debate: hoje a fronteira entre o centro e a periferia - mesmo queo centro não queira, e que invista no apartheid cultural, no aprofundamentodo abismo entre um lado e outro - rebola mais freneticamente que a egüinhapocotó do funk do MC Serginho. E queremos que rebole ainda mais.O Central da Periferia não vai descobrir nada, não vai revelar nenhum novotalento desconhecido. A grande maioria das atrações musicais do programa éformada por ídolos de massa, já consagrados pelas multidões das periferias.Ou são projetos sociais que já influenciam decisivamente a vida de suasfavelas, e contam com apoios internacionais. Mas que em sua maioria nuncaapareceram na TV em rede nacional.O Central da Periferia não quer falar por esses ídolos e projetosperiféricos, mas sim abrir espaço para amplificar as múltiplas vozes daperiferia, para que elas conversem finalmente com o Brasil inteiro. Você nãoprecisa gostar de nada que o Central da Periferia vai mostrar. Você só nãopode ignorar que isso tudo está acontecendo, e que essa é a realidadecultural da maioria, em todo o Brasil.
Texto do antropólogo Hermano Vianna

