Monday, September 04, 2006


Manifesto de Hermano Vianna

Não tenho dúvida nenhuma: a novidade mais importante da cultura brasileirana última década foi o aparecimento da voz direta da periferia falando altoem todos os lugares do país. A periferia se cansou de esperar a oportunidadeque nunca chegava, e que viria de fora, do centro. A periferia não precisamais de intermediários (aqueles que sempre falavam em seu nome) paraestabelecer conexões com o resto do Brasil e com o resto do mundo. Antes, ospolíticos diziam: "vamos levar cultura para a favela." Agora é diferente: afavela responde: "Qualé, mané! O que não falta aqui é cultura! Olha só o queo mundo tem a aprender com a gente!"De um lado, há milhares de grupos culturais, surgidos na periferia, que emseus trabalhos juntam - de formas totalmente originais, e diferentes a cadacaso - produção artística e combate à desigualdade social. Os exemplos daCUFA (Central Única das Favelas), que produziu o documentário Falcão, e doAfro Reggae, que inventou projeto para dar aulas de cultura para policiais,são apenas os mais conhecidos. Na maioria das periferias onde chego, emtodas as cidades brasileiras, mesmo bem longe das capitais, encontro gruposmuitíssimo bem organizados, com propostas de ação cultural cada vez maissupreendentes. Para citar apenas mais alguns: a Fundação Casa Grande, deNova Olinda (região do Cariri, interior do Ceará), com suas equipes de rádioe TV formadas por crianças e adolescentes; a ONG Altofalante, do Alto Josédo Pinho, Recife, com suas lições de rádio e hip hop; o Instituto Oyá, deSalvador; a Companhia Balé de Rua, de Uberlândia... Há muito mais.Do outro lado, assistimos também ao nascimento de indústrias deentretenimento popular que já produzem os maiores sucessos musicais das ruasde todo o país sem mais depender de grandes gravadoras e grandes mídias paraconstruir sua rede de difusão nacional. É o caso do funk carioca, do forróeletrônico cearense (as banda têm DVD, sugerindo o surgimento de umaindústria audiovisual que não está baseada em recursos captados pela LeiRouanet), do tecnobrega paraense, do arrocha baiano, do lambadão cuiabano,da tchê music gaúcha. Todas essas músicas são produzidas na periferia para aperiferia, sem passar pelo centro. O centro apenas reclama da sua falta dequalidade musical, mas não pode mais usar o argumento de que o povo estásendo enganado por uma indústria cultural hegemônica, já que a tal indústriacultural hegemônica não tem a menor idéia do que está se passando - e pareceter perdido totalmente o contato com o que realmente faz sucesso - naperiferia.O tecnobrega paraense, por exemplo, desenvolveu um novo modelo de negóciosfonográficos que não precisa mais de gravadoras para se desenvolver. Asmúsicas saem direto dos computadores dos estúdios periféricos e vão pararnos camelôs e no circuito das festas de aparelhagem (que animam as noites defim de semana dos subúrbios de Belém, com suas toneladas de equipamento desom e luz hoje com controle totalmente digital). Laptops gravam tudo o queestiver tocando e os dançarinos podem comprar o CD - com tudo que acabaramdançar - na saída da festa. O aparecimento de usos locais para as novastecnologias é cada vez mais veloz.O pano de fundo para essa grande transformação das periferias não é apenasbrasileiro, mas reflete uma tendência global. A população urbana do mundohoje é maior que toda a população do planeta em 1960. O número de habitantesdas grandes cidades cresceu vertiginosamente num período em que a economiada maioria desses centros urbanos estava (e continua a estar) estagnada, semgerar novos empregos. Mesmo assim a migração para as cidades não parou, ehoje - pela primeira vez na história da humanidade - há mais gente vivendoem cidades do que no campo. Calcula-se que mais de um bilhão de pessoasvivam atualmente em favelas de todos os países (os "chawls" da Índia, os"iskwaters" das Filipinas, os "baladis" do Cairo, as "colonias populares" doMéxico, as "vilas" de Porto Alegre, os "aglomerados" de Belo Horizonte, eassim - quase infinitamente - por diante). Cerca de metade dessa populaçãofavelada tem menos de vinte anos. Quase todo mundo com trabalho informal.É muita gente, jovem. Governos e grande mídia não sabem o que fazer diantedessa situação. Muitas vezes não sabem nem se comunicar com essa "outra"população, que passa a ser invisível para as estatísticas oficiais, a nãoser para anunciar catástrofes. Essa gente toda vai fazer o que com toda suaenergia juvenil? Produzir a catástrofe anunciada? É só isso que lhe restafazer? Sumir do mapa para não causar mais problemas para os ricos? Em lugarde sumir, as periferias resistem - e falam cada vez mais alto, produzindomundos culturais paralelos (para o espanto daqueles que esperavam que dalisó surgisse mais miséria sem futuro), onde passa a viver a maioria dapopulação dos vários países, inclusive do Brasil.Esses mundos culturais periféricos não são homogêneos. O pessoal dos gruposculturais politizados (os que usam a cultura como arma contra as injustiçassociais) geralmente tem horror aos produtos bregas das novas indústrias doentretenimento periférico, considerado alienado, alienante e reprodutor dedesigualdades. As duas visões de mundo parecem incompatíveis,inconciliáveis, mas acabam produzindo, nas mesmas favelas - mas cada uma aseu modo, as novidades mais vitais (e nisso não há um julgamento estético -apesar de na minha opinião essas novidades muitas vezes serem maisinteressantes também esteticamente) da cultura brasileira como um todo.A própria idéia de inclusão cultural tem que ser repensada - ou descartada -diante dessa situação. Quando falamos de inclusão, partimos geralmente dasuposição que o centro (incluído) tem aquilo que falta à periferia (queprecisa ser incluída). É - repito - como se a periferia não tivesse cultura.É como se a periferia fosse um dia ter (ou como se a periferia almejasseter, ou seria melhor que tivesse) aquilo que o centro já tem (e por issopode ensinar a periferia como chegar até lá, para o bem da periferia). Écomo se as novidades culturais chegassem exclusivamente pelo centro, oufossem criadas no centro, e lentamente se espalhassem - à custa de muitoesforço civilizador - em direção à periferia. Nos exemplos acima vemos que aperiferia não esperou que o centro apresentasse as novidades. Sem que ocentro nem notasse, inventou novas culturas (muitas vezes usando tecnologiade ponta) que podem muito bem vir a indicar caminhos para o futuro docentro, cada vez em pânico diante do crescimento incontrolável da periferia.Quando viajo pelo Brasil, fora das zonas ricas e oficiais do eixo Rio-SãoPaulo (mas muitas vezes a apenas poucos passos dos seus centros de poder),fico sempre com a seguinte impressão: o minúsculo país cultural oficial,mesmo o retratado nos programas mais "populares" da mídia de massa, pareceuma pequena e claustrofóbica espaçonave, em rota de fuga através de buracosnegros, cada vez mais afastado do país real, da economia real, da cultura damaioria.Do lado de fora (na realidade em todo lugar), as periferias das cidadesinventam com velocidade impressionante novos circuitos culturais, e novassoluções econômicas - por mais precárias ou informais que sejam - para darsustentabilidade para essas invenções. Presto atenção especial nos circuitosfestivos, que sempre atraem multidões todos os fins de semana. Hoje, quasetodas essas festas - conseqüência também do descaso do poder público e dodesprezo dos bem-pensantes - proliferam na informalidade (quando não sãoliteralmente criminalizadas, como é o caso dos bailes funk do Rio).De certa forma, essa economia artística informal é produto de uma inclusãosocial conquistada na marra, quando a periferia deixa de se comportar comoperiferia, ou deixa de conhecer o "seu lugar", o lugar que o centro desejavaque para sempre ocupasse (o lugar daquele que sempre espera ser incluído,que sempre acha que é do centro que virá sua libertação). O Brasil vai terque se acostumar com essa "inclusão" forçada, de baixo para cima, feitaassim aos trancos e barrancos. Enquanto isso o centro parece não conseguirdeixar de lado esta nostalgia perversa de um país que "perdemos", quando ospobres e seus costumes "bregas" eram inaudíveis, a não ser num ou noutrolivro de Gilberto Freyre (e Jorge Amado, é claro), ou num ou noutro filme deGlauber Rocha, ou numa noitada no Zicartola. O centro quer que a retirantenordestina ainda ande com vestido de chita, e não com shortinho e top delycra, como manda o uniforme atual das periferias brasileiras...Como cantam os Racionais MCs, periferia é periferia, em qualquer lugar. Essaletra é mais verdadeira do que nunca. Cada vez mais, a periferia toma contade tudo. Não é mais o centro que inclui a periferia. A periferia agorainclui o centro. E o centro, excluído da festa, se transforma na periferiada periferia.O Central da Periferia quer colocar todas essas questões em discussão,trazendo essa realidade periférica - e suas festas, e seus problemas - paraa TV (mesmo tendo a humildade de saber que a cultura da periferia nãoprecisa mais da TV para sobreviver). O nome do programa já é uma provocação,já abre o debate: hoje a fronteira entre o centro e a periferia - mesmo queo centro não queira, e que invista no apartheid cultural, no aprofundamentodo abismo entre um lado e outro - rebola mais freneticamente que a egüinhapocotó do funk do MC Serginho. E queremos que rebole ainda mais.O Central da Periferia não vai descobrir nada, não vai revelar nenhum novotalento desconhecido. A grande maioria das atrações musicais do programa éformada por ídolos de massa, já consagrados pelas multidões das periferias.Ou são projetos sociais que já influenciam decisivamente a vida de suasfavelas, e contam com apoios internacionais. Mas que em sua maioria nuncaapareceram na TV em rede nacional.O Central da Periferia não quer falar por esses ídolos e projetosperiféricos, mas sim abrir espaço para amplificar as múltiplas vozes daperiferia, para que elas conversem finalmente com o Brasil inteiro. Você nãoprecisa gostar de nada que o Central da Periferia vai mostrar. Você só nãopode ignorar que isso tudo está acontecendo, e que essa é a realidadecultural da maioria, em todo o Brasil.

Texto do antropólogo Hermano Vianna

Saturday, September 02, 2006

A MAIS PODEROSA DAS FORÇAS


Colegas do Brasil:
É estranho que pessoas que vivem do nosso trabalho, que não fazem o que fazemos, queiram nos ditar comportamento e nos ensinar como nossos assuntos devam ser encaminhados.
Quem é que fala em nome do governo brasileiro? Com que autoridade afirma: " Cachê não vai rolar, pois o Ministério não estará fazendo um show para entretenimento... " demonstrando não saber a diferença entre arte e entretenimento? Que tem a ousadia de classificar obras de arte (os shows que sem dúvida lá acontecerão) como entretenimento? Quem é que pretende se pronunciar em nome da arte e da política pública brasileira? Que não sabe nem ao menos avaliar que tem em mãos a mais poderosa das forças que o país possui? A NOSSA MÚSICA ?
Como pode desautorizar publicamente os nossos ministros Gilberto Gil e Juca Ferreira (que aceitam o nosso Fórum como interlocutores) quando afirma que ...Além disso a maneira de se registrar exige que o músico tenha empresário, gravadora, CD e DVD lançados, show pronto, etc... e que: ...O foco da Feira não é difusão, mas apresentação de produtos para comercialização e um deles é o show do artista... e que ele (artista) deve trabalhar de graça e como prêmio de consolação terá possibilidade de propor ...sugestões de discussão? E que diz entusiasmado: " ...vamos lá galera que a hora é essa... "
E eu pergunto: HORA DE QUEM CARA PÁLIDA?

Se vocês ainda não descobriram quem é, permita-me apresentá-los colegas: Este é o outro lado da mesa de negociações da Câmara Setorial. São os senhores do mundo que fazem parte da cadeia produtiva e que foi colocada à nossa frente pelo governo brasileiro para iniciarmos esse processo de discussão e que buscam exclusivamente seus interesses, achando que aqueles que justificam sua existência estão a seu serviço.
Mas não colegas, devemos confiar no colega/ministro Gil quando publicamente declarou: ... sou músico e quero fazer com esse cargo algum benefício para a minha categoria... (Funarte Rio de Janeiro, Outubro de 2004. Eu estava presente e ouvi.). Que sabe, assim como o governo brasileiro, através dos nossos representantes do MINC, que não se pratica mais a imposição política/comportamental.
Que a democracia exige que através dos diálogos e negociações entre as partes, a forma horizontal de relações aconteça. Que o sistema piramidal hierárquico não se coaduna com a democracia. Devemos ouvir as bases, estreitar as relações com o poder, negociar, contemplar os desprotegidos, sem paternalismo, mas sim com o objetivo de corrigir as injustiças praticadas onde o trabalho escravo é uma delas.
Entendo ser este o papel do Governo e ele sabe disso, quando entre outras coisas reuniu em Brasília no final do ano de 2005 mais de 1000 delegados de cultura de todo o país para a formatação das políticas públicas de cultura.
E representando este nosso fórum musical eu também estava lá, com o Dú Oliveira, o Adriano Araújo, o Álvaro Santi, o Tibério Gaspar, o Cláudio Ribeiro, o Alex Mono, o Amaudson, o Manoel Neto e muitos outros.
É nisso que acredito colegas do Brasil. É assim que conseguiremos alcançar nossos propósitos não permitindo que aconteçam os desvios tendenciosos. COM A NOSSA UNIÃO.
Abs
Amilson Godoy

setembro de 2007
Feira Música Brasil 2007 POR UM PRATO DE COMIDA


Colegas do Brasil:
Por muito menos, há 25 anos, realizamos um projeto político musical em São Paulo, denominado VIRADA PAULISTA Música para todos os gostos, que acabou se tornando um marco na atividade cultural da cidade.
Na ocasião não existiam ainda Leis de Incentivo à Cultura e foram após os debates e reivindicações deste projeto, que as Leis de Incentivo começaram a surgir.
Os motivos que culminaram com a realização do projeto Virada Paulista em 1981 (realizado no Teatro Lira Paulistana e em 1982 realizado no TUCA-Teatro da Universidade Católica), parecem que ainda estão sendo praticados e merecem a nossa reflexão, aos quais peço a atenção e leitura, sobre o que vou rapidamente neste momento expor.
Em 1980 o Teatro particular de São Paulo (Teatro Augusta) havia feito um projeto que se intitulava MARATONA MUSICAL que pretendia reunir em suas dependências a nova música de São Paulo e para tanto seus proprietários haviam conseguido um patrocínio da prefeitura da cidade (verba direta).
No momento de contratar os músicos esse assunto veio à tona, uma vez que não haveria verba de cachê para os músicos participantes, pois o patrocínio cobria apenas os gastos com a infra-estrutura, ou seja: Aluguel do Teatro, remuneração da intermediação, custos operacionais e outros custos relacionados ao evento, porém não existindo a previsão de pagamento aos músicos participantes.
Inconformado com essa situação o colega e amigo André Geraissatti, na época integrante do GRUPO D´ALMA que participaria desse evento, solicitou que eu comparecesse a uma reunião nas dependências do Teatro, que reuniria os músicos e a direção, uma vez que sendo eu Presidente da UBM - União Brasileira dos Músicos (na época, estávamos envolvidos com um movimento semelhante a esse, do nosso Fórum), deveria participar dessa reunião e quem sabe, tomar alguma medida para alterar esse quadro.
E assim fiz: Propus esquecer aquele Projeto e formatar um outro com trabalho coletivo e participativo, onde unidos, cooperativados e sem depender de ninguém, encontraríamos uma forma de realizar o projeto, pois o mais difícil nós já éramos, ou seja: Os músicos, a matéria prima, o resto nós aprenderíamos.
E assim foi feito, lutamos por Teatros, verbas, equipamentos e unidos, defendendo o princípio de que o músico precisa se organizar fora dos palcos e estúdios para poder existir dentro deles, cada um se juntou num grupo e todos os grupos se juntaram para fazer a VIRADA PAULISTA.
E neste momento, analisando o regulamento do projeto proposto pelo Ministério da Cultura e intitulado Feira Música do Brasil 2007, me recordo dessa época e vejo a situação se repetir, quando oferecem aos músicos profissionais participantes, pelo seu trabalho artístico, presença e participação musical, um prato de comida como forma de pagamento.
Devemos meditar se é isso o que queremos e se é por isso que estamos lutando.
Até poderia concordar com essa forma de retribuição, desde que todos os envolvidos neste projeto também se contentassem com a diária de alimentação como único pagamento. Que os promotores, captadores de recursos, gestores, organizadores, responsáveis pelos estandes, sistemas de som, divulgação, palestras, imprensa, produtores, etc, TODOS repito: Todos os envolvidos neste projeto também participassem desse evento por um prato de comida, aí sim, os músicos em um gesto de concessão e coleguismo, poderiam também ser assim tratados.
Lembro aqui palavras proferidas em Fortaleza, pelo nosso colega/ministro Gilberto Gil: ... é o momento de se buscar novas formas de relacionamento para velhos costumes..., se assim não for colegas, devemos rapidamente apressar a realização da VIRADA BRASILEIRA.
Abs
Amilson Godoy - SP

setembro de 2007