Thursday, May 17, 2007

Carta à RBS sobre cancelamento do Programa Célia e Celma

Ao Grupo RBS.



Prezado senhor Diretor-presidente Nelson Pacheco Sirotsky,


a solidez do grupo RBS não vem de hoje. Desde sua fundação, em 1957, por Maurício Sirotsky Sobrinho, a RBS vem se consolidando representativo grupo multimídia. Crescimento admirável, o qual é incentivado pela missão de “facilitar a comunicação das pessoas com seu mundo”.

Repousa às mãos dos condutores e colaboradores do Grupo imensa responsabilidade. Afinal, a comunicação das pessoas com seu mundo é evento dos mais mágicos da vida, que rompe fronteiras, permitindo, constantemente, a descoberta de si e dos demais.

Comunicar é a base da racionalidade e da passionalidade que hoje nos move.

Ser, então, seu facilitador, é tomar para si a responsabilidade de fazê-lo com responsabilidade, respeito e ética. Princípios pétreos que acabam por sustentar os valores do Grupo, dos quais se destacam: responsabilidade empresarial, satisfação do cliente, compromisso social e comunitário, desenvolvimento pessoal e profissional, liberdade e igualdade e ética e integridade.

E é por todo esse comprometimento que, como pessoa em contato com meu mundo, escrevo para o senhor.

Porém, triste escrita essa.

Como é de vosso conhecimento, a atualidade dos negócios muitas vezes entra em choque com que os valores propugnados da comunicação sejam levados a cabo com o comprometimento ao qual o Grupo RBS se faz estritamente. E tal contradição vem à tona, e muito entristece, pelo cancelamento repentino do “Programa Celia & Celma” da programação do Canal Rural.

O “Programa Celia & Celma”, no ar por nove anos consecutivos, divulgou mais de mil artistas brasileiros. Relegá-lo da grade, num país diverso como o Brasil, não se trata apenas de reduzir custos empresariais, mas, indubitavelmente, dirimir acesso à cultura.

O próprio Canal Rural, ciente do papel que possui ao acesso à cultura, divulga em seu site que “quer exibir cada vez mais a programação regional do Brasil para apresentar o mosaico que é a cara e o sotaque brasileiro”.

Entretanto, o cancelamento de Celia & Celma nos faz voltar à realidade de que, a despeito da cultura ser pública, não necessariamente seu acesso o é.

Celia & Celma, no Canal Rural, facilita a comunicação das pessoas com seu mundo, seu povo, sua cultura. Ao abrir espaço para independentes, Celia & Celma inauguraram vanguarda de manifestação cultural, na qual quem é brasileiro se fazia assim em cadeia nacional. Longes de ditames do mainstream da indústria cultural, com este Programa o Canal Rural vivenciava categoricamente seu valor de compromisso social e comunitário, mostrando todos os sotaques do Brasil.

Em Celia & Celma, a cultura popular se fazia presente, pública e notória àqueles que têm seu direito de não apenas se manifestar culturalmente, mas viver à própria manifestação – assistindo aos mais variados artistas desse país, conhecidos de seus pares e, por questões comerciais, desconhecidos de seu país.

Por isso, senhor Diretor-presidente, esta escrita é triste. Triste, pois mais uma porta que antes abria perspectiva para rompimento das fronteiras da cultura se fecha, abruptamente. Aos telespectadores e artistas desse país, resta, agora, não apenas a janela da programação, mas restrições à sua própria possibilidade de manifestar o belo, sua arte, sua cultura.

Diante desses singelos fatos, peço, encarecidamente, alternativas para a volta do Programa Celia & Celma à grade do Canal Rural e aos lares dos brasileiros.



Com sinceros votos de revisão da decisão,



Diego Coelho

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